12 dezembro 2008

Curiosidades sexuais: Castigo da Anágua


por Blenda Vieira

A rebeldia dos jovens, principalmente homens, não é de hoje. E essa rebeldia sempre incomodou os familiares, mas, as inglesas e as escocesas usaram a técnica do “castigo da anágua” para controlar essa rebeldia. O castigo era simples. O grau de transformação dependia da rebeldia do menino. Para alguns o uso de gravata borboleta, calças curtas, ou tecido de veludo já eram suficientes. Para outros laços nos sapatos, pernas depiladas, roupas intimas femininas e o direito das mulheres friccionarem suas genitálias. O castigo era muito temido pelos jovens porque as mulheres sempre fizeram parte de uma classe inferior da sociedade. Os jovens se sentiam literalmente rebaixados.
LOVE, Brenda. Enciclopédia de práticas sexuais. Tradução de Maria de Fátima
Rodrigues. Rio de Janeiro: Gryphus, 1997.

10 dezembro 2008

Liberação da mulher por meio da obra poética de Gilka Machado


por Rubia Lanie Vaz


A finalidade deste post é apresentar a obra poética de Gilka Machado, visto que a mesma representou um marco importante para a liberação da mulher por meio de seus poemas.

Ao analisar a poesia de Gilka Machado, percebe-se que esta quebra as expectativas em relação à poesia produzida por mulheres, tanto em função dos temas abordados como da qualidade dos versos, levando em conta os critérios dos críticos mais conservadores a respeito da forma. Os poemas audaciosos desafiavam os preceitos e a conduta moral de sua época, colocando pânico nos falsos moralistas do século, visto que a mesma era uma mulher avançada em relação a seu tempo. Emerge então um eu-lírico dividido pelos discursos sobre a atuação sexual das mulheres, que se desenvolvia em direções diferentes, como apresenta o poema que se segue:

A que busca em mim, que vivo em meio
de nós, e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai, de onde me veio,
trago-a no sangue assim como uma tara.

Dou-te a carne que sou... mas teu anseio
fora possuí-la – a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar ao mundo alheio,
essa que tão somente astros encara.

Porque não sou como as demais mulheres?
Sinto que, me possuindo, em mim preferes
aquela que é meu íntimo avantesma...

E, ó meu amor, que ciúme dessa estranha,
dessa rival que os dias me acompanha,
para ruína gloriosa de mim mesma!

No poema, trava-se uma luta entre duas faces de um eu-lírico no feminino: por um lado, deveria agir de acordo com o modelo de mulher assexuada enunciado pelos discursos conservadores, a qual jamais deveria admitir o desejo e por outro, a face que não é aquilo que se espera dentro desses discursos sobre o papel das mulheres de bem.

Surge, nesse poema, uma espécie de separação entre aquilo que se deveria ser e aquilo que se gostaria de ser. Baseado em um sistema de oposições binárias: corpo e alma, mulher e homem, típica da maioria das sociedades que se conhece, a expressão da sensualidade nas mulheres é vista como o oposto da decência (“Trago-a no sangue assim como uma tara”, “para a ruína gloriosa de mim mesma”).

Sob esse ponto de vista, as diferenças entre pessoas só é idealizada sob a crença em essências feminina e masculina, ou seja, entre homens e mulheres, embora o eu-lírico considere-se diferente das outras mulheres pela rebeldia, pelo fato de que não pode conter o desejo, não importando, nesse caso, qual papel o amante prefira que ela represente.

O eu-lírico recusa a passividade que se costuma exigir das mulheres em relação à atividade erótica. As imagens eróticas são recriadas por diferentes vozes femininas, fazendo emergir uma constante tensão entre a consciência literária do erotismo e a consciência erótica do literário. Nesse sentido, a temática erótica traz uma forte densidade literária, visto que ao reatualizar a verdade mítica, simultaneamente, é transmitida uma atitude autocrítica, por se tratar de uma produção poética feminina.

No entanto, é preciso ter uma consciência plena de que a mulher que reflete e expõe o erotismo livremente é a mesma que pensa e diz o seu papel, enquanto construtora da sociedade. São faces do mesmo processo. O autoconhecimento erótico leva ao conhecimento do outro e do mundo e à consciência do poder de transformá-lo com vontade própria.

Os textos escritos sob a consciência literária do erotismo são ricos em referências poéticas, e consequentemente, estes contribuem na construção da identidade com a vivência do desejo, visto que os mesmo percorrem um caminho que vai da aprendizagem para a descoberta, e concomitantemente para o saber, percorrido em contato com a Natureza.

Os poemas, de algum modo, nos sugerem que não é a satisfação compartilhada do desejo apenas ponto de chegada da experiência erótica, mas também marco de partida para o equilíbrio global e para a edificação de concretas utopias. É importante observar como poesia e pensamento estão juntos, mais uma vez, encaminhando-nos para a produção de uma existência solidária e, por isso, radicalmente humana. A qual nos leva a perceber que a Poesia não é apenas um texto construído, acabado, estruturado, mas, sobretudo força geradora de sentidos. Por esse motivo, o poema incorpora o dinamismo da criação, permitindo diferentes leituras.

Referências:

SOARES, Angélica. A paixão emancipatória: vozes femininas da liberação do erotismo na poesia brasileira. Rio de Janeiro: Difel, 1999.

O erótico-obsceno na música sertaneja


por Marilda Barbosa Alves

A linguagem erótico-obscena tem sido intensamente difundida em todos os meios de comunicação de massa. Dentre eles, destacamos a música sertaneja que, por ser tão reproduzida em nossa região, contribuirá no perfeito entendimento de nossos estudos.

Tecemos algumas considerações sobre este léxico e, para tanto, escolhemos a canção “A fruta-vida”, interpretada por Gino e Geno, e a canção “Fogo no rabo”, interpretada por Teodoro e Sampaio.

Em ambas as canções, encontramos uma gama imensa de vocábulos e estruturas que buscam dizer sem dizer. São letras que evocam e fazem apologia ao erótico-obsceno, ou seja, trabalham com palavras que tem sentido duplo e que no contexto geral da música, remetem às genitálias e ao ato sexual. Nas canções citadas, exploram, quase que invariavelmente, a figura feminina, abordando sempre uma linguagem erótico-obscena que, atualmente, se popularizou graças à mídia e à censura que se tornou mais flexível. Ressalta-se que tal modalidade lingüística sempre existiu e hoje, não restringe sua utilização apenas à parcela de falantes considerada menos culta.

O uso de metáforas é bastante recorrente nas canções mencionadas, isto porque, existe um tabu para o uso dos nomes que denominam os órgãos genitais e, para tal, são utilizadas outras palavras que são escolhidas através de associações, que podem ser: pela cor, pelo cheiro, pelo formato. Como por exemplo, na canção “A fruta-vida”, interpretada por Gino e Geno, já no primeiro verso “A fruta que eu mais gosto como até o caroço...”, encontramos a palavra fruta utilizada em um novo contexto, diferente do significado que o signo em primeira instância nos remete: aqui a palavra se refere ao órgão sexual feminino. Ao longo da canção, outros vocábulos são utilizados para complementar o que o autor se dispôs a fazer: assim forquilha nos remete ao vértice das pernas, à região pélvica, onde se encontra a vagina, anteriormente definida como fruta. Ainda encontramos os vocábulos grudadinha, peladinha e cabeluda, mostrando as características da genitália feminina.

Só dá uma no pé.
Grudadinha na forquilha.

Ela tem vários nomes.
E a aparência as vezes muda.
Algumas são peladinhas.
E outras são cabeludas.

Já na canção de Teodoro e Sampaio “Fogo no rabo”, a metáfora se dá com as palavras pistola e cabo, fazendo referência ao órgão sexual masculino. Os objetos mencionados, por sua aparência cilíndrica, servem de referencial e comparação com o pênis, além de supor que este pênis esteja em estado de ereção devido à consistência de tais objetos.

O termo pistola faz menção a uma arma de fogo que expulsa um projétil com grande velocidade através de um orifício em sua extremidade. De semelhante modo, o pênis lança o esperma quando ejacula. O cabo, analisando sua utilização, refere-se a uma parte da madeira ou outro objeto cilíndrico e duro que acopla em uma ferramenta por meio de um orifício próprio, conforme se faz com o pênis durante o ato sexual. Nos dois casos, “pistola” e “cabo”, as palavras que substituem os nomes das genitálias são utilizadas tomando como referência a forma que elas possuem e que lembram o órgão genital masculino quando ereto.

Vou levar minha pistola
E já vou com a mão no cabo
Nós vamos lá pro motel

Vamos fazer um trembel
E apagar o fogo do rabo.


Fica evidente que, aos autores e intérpretes destas músicas, interessa principalmente a popularização da canção por questões comerciais, já que falta muito de apuro literário e sobra vulgarização do tema, composto em versos apelativos e estrofes e ritmos de fácil memorização. O presente trabalho tem o propósito de trazer à tona dados relevantes que contribuam para se entender melhor à produção do léxico erótico-obsceno na música sertaneja.

Referências:

SAVAGLIA, Claúdia & ORSI, Vivian. O léxico erótico-obsceno em italiano e português: algumas considerações.

BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. As ciências do léxico. In: ISQUERDO, Aparecida Alegri & OLIVEIRA, Maria Pinto Pires (org.). As ciências do léxico: Lexicologia, Lexicografia, Terminologia. 2ª Ed. Campo Grande: Ed. UFMS, 2001.

09 dezembro 2008

Curiosidades sexuais: festas de fertilidade


por Blenda Vieira

Numa das civilizações mais antigas do mundo, a dos sumérios [5 a 6000 A.C.], na Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, venerou-se a deusa da Terra, Inini, como criadora do amor e “abridora do ventre das mulheres”. Os sumérios realizavam festas de fertilidade onde as mulheres casadas poderiam fazer sexo com qualquer homem, além do marido, desde que se cumprisse uma regra: deixar cair na terra o sêmen do homem que não era seu marido, a fim de não fecundá-la, pois, do contrário, faltaria com o respeito ao marido.

Fato curioso: a população dos sumérios era governada pelos sacerdotes como reis
do Estado, e eram eles os escolhidos pelos maridos para tirar a virgindade de
suas futuras esposas.

ROCHA, José Martinho da. Virgindade Sexo Família. Editora Rio: 1972. 253 p.

07 dezembro 2008

Desvairados


Por Fernando Cândido
Eu? Gosto mesmo é de sentir seu cheiro
Sugar-te hei. Inteira para dentro de mim
Este é o meu prazer.

Quando nossos corpos então em ebulição
Impregnamos um ao outro antes do fim
Para depois me encontrar no fundo de ti.

Pergunta-me:
– Será normal tal conduta?
Respondo-te:
– E de que se importa ser normal?
Se nossa religião é o prazer.

Fernando Cândido nasceu em Ouvidor, mora em Catalão, mas a cabeça é do mundo. É formado em Administração de Empresas, com pós-graduação em finanças, cursando atualmente Letras pela UFG. É artista plástico, fotógrafo e escritor titular da cadeira número 29 da Academia Catalana de Letras. Publica semanalmente ensaios sobre fotografia e crônicas cotidianas no Jornal Diário de Catalão.


06 dezembro 2008

Charles Bukowski: Considerações sobre libertinagem em “Notas de um Velho Safado”


por Carlos Roberto Oliveira


Biografia libertina


Como pensar a América, mais especificamente os Estados Unidos, de maneira onde a indecência, a decadência, a libertinagem, a depravação e tudo mais se encontram? Bem, pensando assim, é difícil imaginar alguém que realmente faça ou que tenha feito isso na literatura norte-americana, mas houve sim alguém com todas essas características e mais, que soube se utilizar disso de forma engraçada e simples. O escritor em questão pode ser encontrado na figura de Henry Charles Bukowski, ou simplesmente, Charles Bukowski.


Bukowski, durante sua carreira literária, ficou conhecido como o “velho safado”, pois sua obra realmente começou a ser reconhecida somente depois dos seus 40 anos, e sua escrita revelava personagens marginais, bêbados, fracassados, degenerados, miseráveis, incluindo o próprio Bukowski na figura de seu alter-ego mais famoso, “Henry Chinaski”, de outros alter-egos e até como ele mesmo, nas histórias.


Relatando casos de várias espécies sobre esses personagens, suas histórias revelam o lado mais libertino da América, mas ao mesmo tempo criticam de forma bem humorada os costumes e hábitos dos cidadãos americanos. Alemão, nascido em 1920, foi para os Estados Unidos ainda muito pequeno, em 1923, e viveu toda sua vida lá até 1994, quando morreu aos 73 anos, vitimado por uma leucemia. O status de “velho safado” não é por menos, o escritor realmente viveu uma vida depravada, miserável, marginal e utilizou toda sua vida como inspiração para suas obras literárias. Não poupava nada e nem ninguém em suas histórias sujas, conseguiu muitos problemas e arranjou muitos inimigos também, pois a escrita de Bukowski sempre era inspirada no mundo marginal, libertino, por vezes miserável e até mesmo perigoso, mas sempre contando com a simplicidade, o humor direto e objetivo.


O autor realmente viveu meio marginalizado, cresceu nas ruas dos Estados Unidos, viveu com um pai extremamente autoritário e bêbado, saiu de casa muito jovem, estudou jornalismo, sem se formar e viveu trabalhando em empregos temporários até conseguir ser reconhecido na Literatura. Lembrando-se também que Bukowski era um sujeito feio, que durante sua juventude sofreu com sérios problemas de pele, o que o fez se tornar anti-social e alcoólatra: diz-se que é daí que vem toda a inspiração de suas histórias.


A respeito do alcoolismo do autor, este detalhe não pode passar despercebido, o próprio dizia que depois que ele descobriu o álcool e os livros, tudo ficou um pouco mais tolerável. As histórias realmente são contadas geralmente com o autor envolvido em bebedeiras, farras, todas sempre terminadas de formas violentas e depravadas. Essas características na escrita de Bukowski fizeram-no ficar conhecido como um escritor maldito, por vezes considerado um escritor beatnik honorário, coisa que o próprio autor renegava por não achar que houvesse afinidades com tal grupo. De certo o autor estava correto em não se enquadrar a um grupo literário; sua escrita, de aspecto sensacional e obsceno, desmascara muito da própria literatura americana e seus autores.


Mas a escrita do “velho safado”, o lado libertino e obsceno de contar as coisas, o aproximam muito dos grupos de libertinos do século XVII, mais precisamente aos chamados “libertinos de costumes” como assinala a teórica Elaine Robert de Moraes: “...quando se diz que os libertinos de costumes são personagens do século XVII, isso significa que neste momento um tipo de conduta não só adquire visibilidade social, mas também constitui um grupo reconhecido por características particulares: desafio à moral e à religião, desprezo pelos preconceitos vulgares e prática de atos cruéis...”. Em obras como Mulheres, Misto Quente, Cartas na Rua, entre muitas outras que vão desde o poema ao romance, o autor conserva o mesmo tom irônico, crítico, marginal, que se iguala a qualquer característica libertina.


As Notas de um Velho Safado


Charles Bukowski possui a alcunha de velho safado justamente por descrever em suas narrativas e versos o submundo dos cidadãos norte-americanos, sempre com ironia e cinismo, mas nunca se esquecendo de um bom senso de humor. Escreveu tanto poesia quanto narrativas, sendo que esta última só começou possuir reconhecimento pelo público após seus 40 anos.


Bukowski publicou cerca de 30 livros. Marginal e marginalizado, obsceno, crítico e cínico, sempre alcoolizado, mas sempre engraçado, o escritor, por vezes, foi considerado um escritor beatnik, pelo despojamento formal na escrita, quanto pelo estilo de vida destes. No entanto, podemos relacionar também a literatura bukowskiana com a literatura libertina do século XVII, onde a busca pela liberdade ao extremo, desafia tanto a moral, quanto a religião. Tais autores libertinos, denunciando e também atuando em delitos graves, sempre acompanhados por figuras loucas, marginais, pretendem, dessa forma, denunciar o mundo onde vivem. Assim assinala Eliana Robert Moraes: “diferentes naturezas, diferentes volúpias libertinas”.


Principalmente na coletânea de crônicas Notas de um velho safado, que tem sua 1ª edição datada de 1969, que podemos perceber claramente a aproximação que o autor possui com a libertinagem. O livro é uma série de crônicas que o autor publicou em aproximadamente 14 meses, em um jornal alternativo de Los Angeles. Até mesmo a concepção dos textos possui caráter libertino. As crônicas não apresentam nenhum formalismo acadêmico, não possuem títulos, sendo que umas são separadas das outras apenas por um grande ponto.


O autor sempre está bêbado e nas situações mais absurdas e perigosas. A liberdade para a escrita do Velho Safado é percebida logo no prefácio do livro, onde afirma:


Parecia não existirem pressões: Era só sentar próximo à janela, erguer uma cerveja e deixar que viesse. Tudo que quisesse aparecer, apareceria [...]. Pense nisso você mesmo: liberdade absoluta para escrever qualquer coisa que você quiser” (p. 06).


Mas essa liberdade não estava apenas relacionada à escrita, havia também a vida que não era politicamente correta, as loucuras de bêbados, falando abertamente de bebedeiras, marginais, artistas, assassinatos, política. Uma característica importante no livro é que a linguagem do velho safado sempre termina bem, os personagens oscilam entre o próprio Bukowski, seu alter-ego, Henry Chinaski e outros personagens. Observa o tradutor Pedro Gonzaga, no prefácio do romance “Misto Quente”, obra autobiográfica do autor: os palavrões, a escatologia, os porres homéricos são mentiras que nos convencem da verdade, mentiras que nos fazem acreditar, mentiras que tornam nossas próprias mais suportáveis, mentiras que são base primeira da literatura” (p. 06).


A literatura de Bukowski busca justamente, dizer com simplicidade as coisas mais complicadas da condição humana, em versos como:


“Quando o Amor se transforma num comando, o Ódio pode transformar-se num prazer.”


“Se você não jogar, jamais irá vencer.”


“Pensamentos bonitos e mulheres bonitas jamais perduram.”


“Um intelectual é um homem que diz uma coisa simples de uma maneira difícil; um artista é um homem que diz uma coisa difícil de uma maneira simples” (p. 215-217).


Assim, buscando essa liberdade e simplicidade, o autor faz as coisas difíceis, os momentos duros parecerem mais leves pois, após a leitura, percebemos que há vidas tão corriqueiras como a do próprio leitor.


Leia mais sobre Bukowski

Referências:

BUKOWSKI, Charles. Misto-Quente. Tradução de Pedro Gonzaga. Porto Alegre: L&PM, 2006.


______. Notas de um velho safado. Tradução de Albino Poli Jr. Porto Alegre: L&PM, 2006.


MORAES, Eliane Robert. Marquês de Sade: um libertino no jardim dos filósofos. São Paulo: Educ, 1992.

A loucura de um homem pelo prazer: “O Aventureiro Húngaro”

por Luciana Machado
A história de “O Aventureiro Húngaro” perpassa quatro etapas de sua vida, que vai do céu ao inferno. O aventureiro, na verdade, era um homem esperto e sagaz, que viajava constantemente. Apelidado por “Barão” ele era o centro da atenção das mulheres. O barão teve vida sexual muito ativa chegando ao extremo.

A primeira etapa é a mais “normal” aos nossos olhos. O aventureiro conhece diversas mulheres nas suas viagens; porém, uma delas chama-lhe a atenção. É Anita, uma prostituta brasileira que fazia jus a profissão: era conhecida por “pintar o sexo com batom”. Com essa mulher, o Barão ficou mais tempo e teve duas filhas. Depois voltou a percorrer caminhos desconhecidos.

A segunda etapa da vida deste mundano se passa em Roma, em um Grand Hotel. Lá conhece uma família, pai, mãe e duas meninas. As crianças se encantaram pelo Barão e ele também pelas meninas. Brincavam inocentemente com ele, até que começa uma provocação não intencional pelas garotas, mas que agrada ao Barão. Mesmo não sendo explícita, devido à esperteza do húngaro, inicia a partir daí uma situação de pedofilia: as crianças brincavam na maior inocência, enquanto o barão aproveitava para sentir o prazer com seus “Joguinhos Eróticos”.

A terceira mudança foi marcada da seguinte forma: o barão foi para Nova York. Aqui veremos traços da loucura de um homem obcecado por sentir prazer a qualquer preço. Casado e tendo um filho, o aventureiro soube que a dançarina a qual lhe dera duas filhas, havia morrido de tanto se drogar. Lembrou-se das duas filhas que tivera com a dançarina, e que já seriam lindas moças. Pensando em se beneficiar com a situação, levou as duas para morar em Nova York com ele. Não demorou, começou um triângulo carnal (seria ousadia dizer amoroso) entre irmãs e pai, consumando um caso de incesto.

A quarta etapa desta história mostra o que fez a obsessão erótica deste aventureiro húngaro. Não satisfeito com as filhas e com a mulher, a fúria sexual passou ainda mais do limite quando violentou sexualmente o próprio filho. O fim do aventureiro é ser abandonado com sua loucura e velhice.

Erótico ou Pornográfico este texto, meu caro leitor?


O texto de Anaïs Nin pode ser considerado erótico, devido seu conteúdo lingüístico bem elaborado. Temos um texto erótico quando existe uma construção da linguagem, uma situação sexual sempre envolvida em um tipo de situação lingüística, ou seja, poética erótica, atividade subjetiva interior.

Baseando-se no livro Poesia erótica em tradução, de José Paulo Paes, é possível distinguir-se a literatura erótica da pornográfica. “Efeitos imediatos de excitação sexual é tudo quanto, no seu comercialismo rasteiro, pretende a literatura pornográfica. Já a literatura erótica, conquanto possa eventualmente suscitar efeitos desse tipo, não tem neles a sua principal razão de ser. O que ela busca, antes e acima de tudo, é dar representação a uma das formas da experiência humana: a erótica”.
Percebemos este traço de literatura erótica, no trecho do livro de Anaïs (p. 16), quando o aventureiro húngaro conhece a dançarina Anita. Perceba as descrições:

Os olhos alongados de Anita não se fechavam como os das outras mulheres, mas como os olhos dos tigres, pumas e leopardos, com as duas pálpebras juntando-se preguiçosa e lentamente; e estas pareciam levemente unidas próximo do nariz, tornando-se mais estreitas, com um relance lascivo e oblíquo pendendo dos olhos, como o olhar de relance de uma mulher que não quer ver o que estão fazendo em seu corpo. Tudo isso dava a ela um ar de quem estava fazendo amor, o que inflamou o Barão tão logo a conheceu. Quando foi ao camarim para vê-la, Anita estava se vestindo em meio a uma profusão de flores; e, para deleite dos admiradores sentados à sua volta, estava pintando o sexo com batom, sem permitir que eles fizessem qualquer movimento em sua direção.

[...]

O sexo dela era como uma gigantesca flor de estufa, maior do que qualquer um que o Barão já houvesse visto, e o pêlo em volta era abundante, encaracolado, negro acetinado. Eram aqueles lábios que ela pintava como se fossem uma boca, muito requintadamente, de modo que ficaram como uma camélia vermelho-sangue aberta à força, mostrando o botão interior, o cerne mais pálido e de pétalas mais delicadas da flor.

Outro ponto que vale destacar, meu caro leitor, refere-se à obsessão do Barão por sexo. Porque o Barão nunca se sentia satisfeito? O Barão tem traços de um ser pornográfico? Segundo Francesco Alberoni, no livro O erotismo, “a pornografia é uma figura do imaginário masculino. É a satisfação alucinatória de desejos, necessidades, aspirações, medos próprios deste século. Exigências e medos históricos, antigos, mas que persistem até hoje e que ainda são ativos.”

Pode-se dizer então que o Barão viveu na prática essa satisfação alucinatória de desejos e necessidades, marcadas em suas aventuras sexuais que o levaram à loucura. Ainda no livro de José Paulo Paes, encontramos uma afirmação, que vem de encontro à vida do aventureiro húngaro, que diz; “o remorso do pecado e a abjeção da queda são o melhor excitante para as perversões da alma e do corpo que, cristão às avessas, o poeta se compraz em imaginar.”

O Barão é um ser obsceno. Se aprofundarmos a origem da palavra, perceberemos que “o estigma de obsceno, adjetivo que o sexólogo Havelock Ellis fez remontar etimologicamente a obs + cena”, indica o que deve ficar fora de cena. Por isso quando lemos a obra, as atitudes do Barão no decorrer da estória, nos ferem o pudor, pois, nos dizeres de Alexandrian, “rebaixa a carne, associa a ela a sujeira, as doenças, as brincadeiras escatológicas, as palavras mundanas”.

Você concorda com estas afirmações? Leia o texto!!! Dê a sua opinião em nosso Blog!!!

Aproveite e atice o seu desejo, a sua libido, a sua curiosidade!!

Vamos ler o “Aventureiro Húngaro”?

[Clique aqui para ler o conto de Anaïs Nin]

Referências:

ALBERONI, Francesco. O erotismo. Tradução de Elia Edel. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

ALEXANDRIAN. História da literatura erótica. Tradução de Ana Maria Scherer e José Laurênio de Mello. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

NIN, Anaïs. Delta de Vênus: histórias eróticas. Porto Alegre: L&PM, 2005.

PAES, José Paulo. Poesia erótica em tradução. Seleção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. São Paulo: Cia das Letras, 1990.