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20 julho 2011

Mais poemas eróticos de Janaína Assunção


 


 Te possuir 

Como te descrever, meu delírio, ao possuir-te...
Tu, fêmea escultural, que de meus olhos nunca escapa
Que da minha boca não se desaguarra
Que dos meus desejos nunca se separa.


Fêmea desejosa que provocantemente me enlouquece
Com este ar de superioridade, me faz perder o sono
As madrugadas espero por você ( um macho insaciável!)
Espero atar-te no meu corpo e fazer-te absolutamente minha!


Como me conter, se ao passar-te por meus olhos, me provoca astuciosamente...
De propósito me faz pulsar o sangue dormente.
Tu, fêmea fugaz, me incentiva a querer viajar nesse corpo
Que, parece despercebidamente, me atrair.



Se não fosse tu, fêmea louca, eu não sentiria esse gozo
Esse contentamento e esperança de um dia ser teu
De um dia e para sempre possuir-te por completa
Enlouquecendo-te com meu corpo como tu, fêmea, o faz com o meu!



 


 


 


 

 

 

 

 

 



 

 

 

 

 

Nosso lugar 


Só existe lugar para você e eu...
Um lugar ocupado por nossos corpos unidos, atados, colados
Onde o fazer amor é tão somente uma sublime recompensa
Onde nenhum de nós procura pronunciar uma palavra sequer...


Estamos grudados um no outro e não há tentativas de separar-nos
Teu corpo, tão bem encaixado no meu, só pede amor
Meu corpo, tão bem encarnado no teu, delira de dor.
Estamos a sós...Ninguém para nos incomodar...


Para mim, o melhor lugar para se estar é no teu corpo
É onde me realizo, me solto, me consumo de prazer...
Para você, o melhor lugar também é o meu corpo
Que te respira, te suga, te alimenta em te-me...


Enfim, renuncio-me a ti, me ofereço como uma carne suculenta,
Esvazio-me de receios, de pudores somente para melhor satisfazer-te.
Você, embrutecidamente ao mesmo tempo que suavemente, se esguia em mim:
Contorce-se, aconchega-se, entrelaça-se faminto para me possuir!


E enfim...Nos possuímos, nos devoramos mutuamente.
Você, com a carne ardente em desejos incontidos
Devora-me como se fosse a última vez...
Eu, uma fêmea carente de ti, entrego-me sem reservas...


O lugar, enfim, não nos cabe, não nos preenche...
Em dado momento, tudo se torna incompreensível.
Não existem palavras...somente gemidos
De um amor misturado com dor por nos possuirmos!
 

13 junho 2011

Dois poemas eróticos de Janaína Assunção

Enlouquecer

Já não percebo o chão, o cheiro, a chave da sua porta que me abre para o amor...
Enlouquecido por seus beijos infames, traiçoeiros e eróticos, desnudo-me para ti.
Com tua saliva abundante em meu corpo - o melhor dos meus banhos!
Com dentes suplicantes por uma promessa de eternizar o momento, devora-me!

Como a carne mais frêsca, cheirosa, convidativa ao seu caçador veloz,
Rendo-me, renuncio-me, alimento-te.
Doce carne com pimenta aromática decorada de saliva e suor.
Enlouqueço-me como um predador de amores furtivos e incontidos!


Com a dança que estremece o ventre adornado de enfeites mil,
Tu, fêmea encantadora de meus inexplicáveis prazeres, enlouque-me.
As muralhas de minha razão, meus limites todos , tu fazes cair.
E nem mesmo a melhor das minhas imaginações surpreendem-me por ti!

Tudo o que você parece desejar ao cantar no meu corpo é enlouquecedor.
Não há mais pêlos para arrepiar, não há mais o que conter : nem gritos, nem sussurros...
A mulher do meu sonho, do meu corpo, do meu prazer, da minha vida,
É das fêmeas, a mais atrevida e pura, incontida e nua, pervertida e crua...

Com esta mulher enlouquecer é morrer várias vezes para a morte e renascer mais que mil para a vida.
Com ela enlouquecer é tirar o corpo de mim mesmo e doar-me sem reservas para somente ser dela.
Com esta fêmea desejo caçar as madrugadas sedentas de todo prazer fugaz.
Enlouquecê-la de beijos, salivas, suores, mordidas...cantá-la afinando-a nas cordas do meu corpo de amor!


Poemeto erótico


Eu me delicio no teu suposto corpo tão desejado por mim
E me embrenho nestas densas matas quase que inexploradas...
São tantas sensações prazerosas, que atingimos o ápice sem parar,
Como que num movimento não só corporal, mas também psicológico...

Em me arrebento de entregas múltiplas e sensacionais no teu colo
E me entrego à melhor das viagens no teu corpo suado, molhado, atado ao meu.
São gotas de lágrimas entrelaçadas às células incontidas de nossos corpos.
Fervemos, esmorecemos e posteriormente, recompensamo-nos...

Mutuamente sou você em mim e você sou eu novamente em você.
Intuitivamente procuramo-nos, alternamo-nos, enlaçamo-nos inúmeras e incontidas vezes...
E eu já não sei o que sou (se sou), como sou em você.
E você já não se vê, não se sente, não se percebe toda de uma única vez em mim.

Poemas de Janaína Assunção


Moça
 
No ápice de nossos corpos
Está você, moça, que suga minhas energias...
Que com tão suave toque,
Me conduz ao mais supremo dos prazeres!
 
No entrelaçamento de nossos corpos
Onde não há mais espaço, 
Ofegante como uma presa à caça,
Você, moça, desesperadamente me ama!
 
No mais sublime gemido de renúncia
Em que já não há mais palavras,
Ficamos unânimes em um êxtase
Que perdura sobre nossos corpos!

Moça, o corpo que é só teu
Pode agora ser também só meu...
Na união frenética e possessa
De nossos enlaçacos corpos!


Sede e fome

Tenho sede... esta mulher cheia de contornos,
É a delícia dos meus prazeres sem fim.
É a mais apetitosa água
Que escorre pelos meus lábios e dedos e pernas...


Tenho fome... esta criatura tão sensível
É o único motivo pelo qual não resisto!
É o mais doce dos favos de mel
Que umedece meu corpo desejoso...

Tenho sede e tenho fome desta candura sensual
É a mais bela obra dos meus prazeres
É a mais esculpida dos corpos que já apalpei...

Sede e fome desta efêmera rosa avermelhada
Incontida entre lençóis...
Que, roçando entre meus membros, me conduz ao infinito prazer!

22 maio 2011

Dois Poemas Eróticos de Janaína Assunção


Gosto do teu cheiro de suor grudado no meu corpo
Gosto do teu beijo açucarado de tanto doce desejo
Gosto dos teus membros inferiores roçando meu ventre
E os teus superiores deslizando em meus cabelos...
 
Busco lembrar-me, segundos depois, da sua incontinência
Busco recordar de cada momento e movimento
Busco desesperadamente sentir de novo tamanho prazer
E pelo sono e cansaço rondo-me em meio a tanta euforia.
 
Chamo teu nome a todo instante nos meus sonhos ardentes
Chamo você de novo para mais uma vez nos amarmos
Chamo teu corpo, teu cheiro, teu suor, teu gosto quentes
E quando os possuo me derramo de orvalho...
 
Quero anciosamente possuir-te nos meus braços
Quero novamente sentir-te ao meu lado
Quero loucamente envolver-te no meu corpo
E descobrir-te e descobrir-me por inteiro...
 



Sensualidade

Suaves dedos angelicais que passeiam pelo meu corpo arrepiado
Longos cabelos cacheados que permeiam meu rosto
Delicados lábios ardentes que se fartam do meu suor
Sedosos braços brancos que me prendem ao teu corpo.
 
Precioso gosto de uma fruta desconhecida
Cujo aroma me é apetitoso
Cujo aspecto me é atrativo
Cujo desejo me é necessário...
 
Saboroso gosto de pêra, nêspera, pêssego
Aveludados, temperados e ainda avermelhados...
Delicados cachos de uvas amadurecidas
Cuja fertilidade anuncia outra primavera...
 
Mulher fértil, abastecida de adornos incomparáveis
Que, despida, é toda delícia dos frutos
E vestida, toda cobiça do meu pomar
Mulher carnal, nua e também sensual...
 
Gosto do teu rosto macio e corado, mulher angelical
Gosto das tuas tranças desfeitas envoltas nas minhas pernas
Gosto das lábias que tem os teus lábios para me seduzir
Mas gosto mais ainda de você completa, minha e nua!


11 dezembro 2010

Fios Desencapados

Capa
Dois poemas de Ulysses Rocha Filho
O autor em noite de lançamento


FIOS DESENCAPADOS


Bafejada na nuca
Sussurro na orelha
Língua no peito
Tato no tato
Tentáculos no dorso
Encaixe da vida:
o fios desencapados!

o fios desencapados
No café da manhã
No descanso do almoç
o
No encontro da tarde
E no descanso(?) Da noite!

Mas sã
o possibilidades mil:
Língua na nuca
Sussurro na orelha
Tentáculos no peito
Encaixe no tato
Bafejada no dorso
Tato da vida:
sempre, fios desencapados!

SEM SUAR


Nem vai doer
Se nã
o gritar
se nã
o dizer não
se aguentar tudo
e pedir bis!

o vai ser fim
Nem começ
o:
será durante!

Sem sal
Com sal
Insosso
Mas real:
com amor
(e tesã
o, por que não?).

o vai ser fim
Nem começ
o:
será durante!

Nem vai doer
Se nã
o gritar
se nã
o dizer não
se aguentar tudo
e pedir bis!

Prazer em ser
Ter prazer sendo
O que ausente
o foi ou era!
Nem veio pra ficar
Sem ou com sal
Mas 
para suar:
num sensual suor!

27 novembro 2010




Por Erli Porto

... depois... eu ainda não beijarei sua boca, não agora. Eu irei passear com a ponta de minha língua pelos seus lábios... Lindos lábios como se quisesse sentir o gosto de seu corpo através de sua boca. E lamberei sua face, como fera lambendo sua presa... Doce presa. Você será meu, só nesse momento, um breve momento. Sua orelha... Suplico que seja meu por um instante apenas, não mais que isso. Sou fera nesse momento, não me importa mais o mundo lá fora. Só penso em saborear a minha presa, linda presa. Não tente escapar! Deixe-me sentir seu gosto... O seu cheiro... Quero o seu suor em meu corpo... Minhas mãos tornam-se atrevidas e começam a explorar você. Conhecerei seu peito, suas costas, você... Novamente seus cabelos. Minha boca morderá a sua, devagar... Minha língua procurará a sua... Meu corpo tocará o seu e, então, você sentirá o que é capaz de provocar em mim... Mordo meus lábios para prender o prazer... Que prazer... E... O beijo... Ah esse beijo! Resisto. Por enquanto... Quero prolongar a vontade... Até não resistir mais... Não posso mais... Não agüento mais a vontade do beijo... Minha boca encontrará a sua, lentamente... Quero o beijo... Quero sentir o que provoca em mim...  Quero sentir meu corpo junto ao seu... Toque-me... Deixe-me sentir suas mãos...  Dê-me seu beijo... Somente um beijo... Nada mais lhe peço... Mereço esse beijo... Esperei por ele... Sonhei com ele... Chorei por ele. O beijo louco, proibido, apaixonado, quente, sem culpas, irresponsável... Que me fará sentir mulher... Beije-me.

20 dezembro 2008

Tímido Poema, de Lucas Gilnei


por Lucas Gilnei

Início



Se entre as dançantes luzes olha-me.
Recuo. Não sei desses labirintos.
Seduz com o olhar faceiro.
Cruza as pernas.
Realça o entre abrir da blusa.
Recuo. Não sei desses labirintos.

Mas, tomo tento e fico esperto.
Se insistir, digo: - Ensina-me?
Põe tua mão sobre a minha.
Leva-me a passear pelo seu corpo.
Mostra à minha boca.
Mostra às minhas mãos.
O caminho para sentir-te inteira.


Lucas Gilnei é aluno da especialização em Letras na UFG - Campus Catalão e atendente comercial. Canceriano e leitor, agora, também, tem um blog: VERBORRAGIAS.


Eros Enunciado: a poesia erótica de Marina Colasanti


por Silvana Augusta Barbosa Carrijo

Murmúrios, gemidos, lamentações, ladainhas de orações constituíram, por muito tempo, o quinhão discursivo atribuído e concedido às mulheres. No Novo Testamento, Paulo, dirigindo-se a Timóteo, afirmava incisivamente que a mulherdeveria ouvir a instrução em silêncio e submissão. No âmbito da criação literária, propriamente dito, tal interdição se fez historicamente presente vez que, durante séculos, o sujeito masculino constituiu voz enunciadora quase exclusiva. A partir da segunda metade do século XX, porém, obras de escritoras várias são descobertas e trazidas à baila como objeto de investigação científica, asseverando o exercício feminino de rompimento das fissuras de interditos lingüístico-literários às mulheres. Ao enunciar de maneira resoluta e desembaraçada sobre a temática do erotismo em alguns poemas de Rota de colisão (1993) e de Gargantas abertas (1998), Marina Colasanti não só assevera seu direito de enunciação como também elege como mote literário um tema tabu por muito tempo interdito às mulheres. Superando o reinado do sussuro, do não-dito, do implícito, Marina contempla os amantes no espetáculo amoroso. Frutos e flores, seios e dedos, olhos e bocas são alguns dos signos enunciados pela escritora em sua poética do erotismo, poética em que descortina artisticamente o espetáculo amoroso aos olhos do leitor:

Teu sexo

Teu sexo em minha boca
me preenche
como se pela boca
penetrasse a vagina.
Teu sexo em minha boca
me engravida
Me põe túrgida
prenhe
mel coando dos peitos
sobre a cama.

Entre um jogo e outro

Ter você nu na cama
que deleite.
E como a gente brinca
e rola e ri
para depois sentar
nos lençóis descompostos
o corpo ainda suado
e continuando sempre
o mesmo jogo
falar a sério
de literatura.

Te beijo no cangote
e quieta penso:
um outro amante assim
Senhor
que trabalho terias
pra me arrumar
se me tomasses este.


De líquida carne

Meus seios tomam a forma
do momento que os contém.
Se colhidos pela boca
alongam ardidas pontas.
Se aprisionados na mão
acrescem à própria curva
a curva doce da palma.
E quando soltos ao vento
no meu corpo em correria
ondejam
como a maré que a água faz na bacia.

Frutos e flores

Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me transpassa.

Assim, por via do exercício pleno da sexualidade, da contemplação resoluta do erotismo, a mulher, em contato com o homem, floresce e com ele empreende a tentativa de, pela perpetuação da espécie, dominar as faces horrendas e implacáveis de Cronos. Assim, mulher e homem fazem com que Eros, descortinado e contemplado, vença Tânatos. E o reinado do erótico se infiltra no domínio do poético, mais especificamente do poético de autoria feminina. Rompendo séculos de interditos à sua voz, a mulher enuncia alto, em bom som e com maestria literária sobre o exercício da sexualidade. Assim, Eros é femininamente enunciado.

Silvana Augusta Barbosa Carrijo é professora de Literatura na UFG - Campus Catalão. O artigo completo sobre a poesia erótica de Marina Colasanti encontra-se no livro: Formas e Dilemas da Representação da Mulher na Literatura Contemporânea, organizado por Maria Isabel Edom Pires e publicado pela editora da UnB, em 2008.

Dois Poemas de Ulysses Rocha Filho



por Ulysses Rocha Filho


Coisa de Minuto


Vem, me pega, me morde
Me joga na parede
me faz lagartixa
que o homem vem
que a sogra espreita
que a adrenalina subiu
que o cio pede
e eu desejo ardentemente!

Vem, me xinga
me pega de jeito
de qualquer jeito
à qualquer hora
quando puder
e quando quiser...

Tô fazendo justiça com mãos
matando cachorro a grito
Metendo os pés na jaca
No minuto do sexo sem nexo
Pra dizer que te quero!

Quirodáctilo

Toquei o dedo no meio
Do nada do sexo
E comecei acariciando
O mais belo favo de mel...

Viajei por outros caminhos
Desci aos infernos da solidão
(Percebendo presença de multidão)
Mas alcancei um prazer supremo....

Como nunca imaginara,
Descobri na dor do prazer,
entre o dedo indicador e o anelar,
A falsa realização do sonho...

Em cada palavra – mentiras!
Em cada olhar – verdades!
Em outros sonhos – ilusão!
Em cada dedo, no sexo – um não!

Ulysses Rocha Filho é professor, mora em Catalão-Go, escreve seus contos e poemas, relaciona literatura e cinema além de tentar ser pai e marido exemplar e manusear um blog: ULYSSITUDES.

12 dezembro 2008

Duas telas de Maisa Pacheco

Feminilidade
Sensualidade

Maisa Pacheco é artista plástica e reside em Catalão. Iniciou suas atividades artísticas na Fundação Cultural Maria das Dores Campos e atualmente é aluna no Atelier do Prof. Sérgio. Cursa Letras e Artes Visuais (EAD). Estas duas telas exploram aspectos do feminino, ressaltando símbolos relacionados à sedução feminina e à sexualidade.

07 dezembro 2008

Desvairados


Por Fernando Cândido
Eu? Gosto mesmo é de sentir seu cheiro
Sugar-te hei. Inteira para dentro de mim
Este é o meu prazer.

Quando nossos corpos então em ebulição
Impregnamos um ao outro antes do fim
Para depois me encontrar no fundo de ti.

Pergunta-me:
– Será normal tal conduta?
Respondo-te:
– E de que se importa ser normal?
Se nossa religião é o prazer.

Fernando Cândido nasceu em Ouvidor, mora em Catalão, mas a cabeça é do mundo. É formado em Administração de Empresas, com pós-graduação em finanças, cursando atualmente Letras pela UFG. É artista plástico, fotógrafo e escritor titular da cadeira número 29 da Academia Catalana de Letras. Publica semanalmente ensaios sobre fotografia e crônicas cotidianas no Jornal Diário de Catalão.


04 dezembro 2008

Dois P(r)o(s)emas de Dheyne de Souza

por Dheyne de Souza

A amante

Então ela disse a ele:

(Estavam num quarto comum de hotel.)


– Eu não quero que diga nada. Eu quero que se desvencilhe do que te prende a mente e deixe o teu corpo comigo. Solte seus maxilares e deixe teus lábios descansarem um pouco do que o mundo, os singulares, os apegos lhe deixam. Não, eu não só não quero, como isso é uma grande ordem. Mas não entenda assim tão forte essa pequena e única amarra que ponho em teus olhos, desassossegue teus punhos, largue à cama os teus conceitos, isso, que te fazem humano. Quero-te líquido, límpido, quero te despir sem anseio. Não, não há relógios, não olhe, dos teus sentidos eu quero nada, um mergulho pense só nisso, nesse corpo de plumas abaixo e sobre teu peito. Desfaço esses botões não como quem te arranca vazios, antes te sopra ares quentes, sim, solte estes teus dedos, deixe-me que com eles falo só. Vejo a poesia dos teus pêlos darem ritmo às balizas do meu toque, canto, arremedos de fios percorrem agora teus calcanhares, teus joelhos, o escombro dos teus cotovelos, o nicho de teu umbigo. Descobrem-se todos cassinos no risco que minhas mãos, sim, cala sem te calar, fecha os olhos sem trancas, não fuja, deitado meu dente te invade mamilos, portas, tendões. Uma chuva inesperada e distante aproximo-me de teu hálito, deixe-o; na morada de teus vulcões entro só, permaneça, não mais, me deito larva em tua boca, corrôo agora teu ventre, tuas emoções seitas ali, derramo tamanhas guelras num rio que te me faz estiagem, inundo-te pêlos e peles, pelas frestas sulco cais, inauguro ilhas, portos, pequenas montanhas que sobrevivem as minhas águas, que peixe te fazes manso e o que te envolves é senão liquidez de tato e miragem.

Abandonou seu corpo e deixou teus olhos no teto.

(Estavam num quarto comum de hotel.)

______________

Pequenos fins ou Uma canção de desapego

Quero cobrir-te o rosto de adeuses, riscar nas linhas de tuas maçãs pecados nunca inclusos, roçar tão de leve tuas resistências e partir tão suave teus soluços de infância, tuas queixas dormidas em becos escuros, tuas angústias franzidas em velas de alecrim, tuas ironias frágeis, oscilantes, os vãos dos objetos caídos de teu colo, como pérolas no leite, folhas secas no outono, feito camaleão na tua pele escorregarei baixinho despedidas bem sutis. Para que não te apercebas do sono vívido e do calor solitário que a madrugada traz, o frescor inválido mas frescor, a luminosidade que às vezes a lua veste, tão sorrateira correrei tuas veias como um rio que vigia esperas, comuns lírios pregueando teus cílios, como madeixas te soprando o dorso. E não verás em meu rosto teus olhos fechados, e não terás imagens nem poesia nem noite senão uma lembrança apagada e insônia. E mesmo quando, por último, te colar os lábios derramando fins em um silêncio gordo, não ouvirás nem leve o meu sussurro mudo gritando aos urros a falta de aldravas, cairei à porta
exausta
de desapego.

Dheyne de Souza nasceu em uma madrugada, ou meio-dia, de julho, segundo dia, com certeza, de 1983. Cristalândia, Vianópolis, agora em Goiânia. Fez Letras, começou Artes Visuais. Escreve há um tempo, pinta há um pouco menos, com um pouco bem menos de regularidade que escreve. Assim mesmo, às vezes, sem. Completar. Não quer muito falar por que escreve, por que pinta e quem exatamente e quanto lê. Nada anormal. Mas fala com vacas, ah sim. E por que não? Reflexos, reflexões, refletidas. São os olhos dela. São as cercas, o cheiro de estrume, o capim e aquele extraordinário ruminar. Ruínas extremas no céu estupidamente azul benzendo o chão vil enquanto. Ela não consegue muita prosa, falar então tem sido menos. Mas tenta. Tenta muito, muitos dias, muitas horas, muito minuto. Assim um no outro em desespero, desenfreio, embaraço. Prefere o não-falar de vacas, ruminemos. Está também no Histórias Possíveis.

01 dezembro 2008

Travessia



por Paulo Pazz

Final de verão! Certas pequenas nuvens teimam em flutuar no horizonte que o calor tem endoidecido com seu bafo pegajoso e irritante. Nenhum vento aparecia para amenizar aquele estado de letargia do próprio mundo ante a inclemência do sol de verão. Havia em sua mão uma rosa amarela! E o moço não sabia o código das cores. Para ele uma rosa era uma rosa... o presente fugaz que deixa marcas indeléveis na alma feminina que o recebe. Sabia disto, tanto quanto sabia de amor uma criança que na verdade era. Carregava aquela rosa como quem carregava o mundo. Era um cuidado que o obrigava a manter os dedos delicadamente firmes... Por isto o suor a lhe empapar as axilas.

_ Não dará certo! _Falta coragem! _Ela não entenderá nada de nada! _Afinal, quem sou eu pra me dar o direito de ao menos tentar algo assim! Medo, Dúvidas, Rasgos na alma infante, Lanhos profundos castigavam-no por dentro e por fora. O mundo estava, ali, pronto para ridicularizá-lo ou julgá-lo como juiz irredutível e alheio às suas imensas vontades ante tão parcos recursos.

A rosa amarela e murcha sobre o banco ausente do jardim seria testemunha e cúmplice de mais um dos muitos amantes ocultos, de mais um desertor diante da primeira batalha a que o cortejar se assemelha. Fora inútil o existir daquela rosa? Teria nascido apenas para perecer desidratada sobre o banco de cimento? Inutilizada pelo covarde algoz, estava fadada a ser esquecida sem que tivesse participação efetiva no que o ser humano, na sua infinita arrogância e megalomania, impusera a ela como projeto de vida.

***

Ela acabara de sair do banho e, no entanto, a transpiração se dera até mesmo sob a ducha fria escorrendo luzidia pelo corpo, em deslizar macio e silencioso, arrepiando-a pela sensação do prazer indescritível. A água descendo pelo seu corpo foi um alívio para um dia cansativo e extremamente causticante. Daí a sua vontade de eternizar o momento, enquanto percorrera suas mãos aveludadas e amadoras por toda a extensão do corpo esguio. Os bicos dos seios despertaram! Seus dedos quase que poderiam contar cada ponto de sua pele, eriçado pelo dedilhar amedrontado e silencioso. Tivera consciência de que o pecado esterilizaria sua alma apinhada de tabus até então mantidos como palavra de ordem. Mas fora tudo tão bom que valera pelo gosto que lhe secara os lábios vermelhos e carnudos. Sua língua percorrera a fileira de dentes perfeitos que ora trincaram, ora pareceram querer devorar omundo.

Por culpa ou pudor, sei lá, não emitira um gemido sequer. Contivera a voz, engolira qualquer sussurro que certamente lhe devolveria ao mundo real e cruel. Suas pernas se abriram involuntariamente, como se recebesse o amante sempre esperado para possuir a mulher, na ampla acepção da palavra. Trêmula, dirigira o jato da ducha contra o vértice das pernas e a sensação se tornou doridamente indescritível.
_ Aaaaaahhhhhh! Explodira, enfim!

Depois dos incertos e desconexos movimentos que promovera e não pudera mais controlar, uma letargia preguiçosa a possuíra, obrigando-a a permanecer prostrada dentro da banheira. Seus pensamentos flutuaram sem destino, revolvendo sua própria história de medos e ritos. Pouco depois o secador lambia-lhe os cabelos castanhos, longos e cheirosos, abraçados à escova, supondo um contato de frescor remissível. De frente para a porta espelhada do guarda-roupas, seus gestos evoluíam naquele trabalho de tentar aperfeiçoar o que já nascera único e intraduzível em palavras que referissem ao belo. A medida de seu esforço contribuíra para que o roupão branco se rebelasse e permitisse uma abertura frontal, permissiva e pecaminosa.

Eis a imagem perfeita: a languidez daquele pequeno seio se insinuando, meio encoberto pelo tecido, apontando para o alto, capturando sonhos de luxúria. Haveria algum poeta, ou pintor, ou escultor que se aventurasse a exprimir com absoluta fidelidade a ventura daquelas formas divinas e... demoníacas? Finalmente, terminada a ocupação com os cabelos, levantou-se, deixando tudo espalhado sobre a cama. Encaminhou-se para o guarda-roupas e vasculhou os cabides com resoluta suavidade, analisando e desdenhando cada peça testada por cima do roupão.
_Ufa! Até que enfim!

Um conjuntinho palha: blusa de alcinhas e saia justa que chegava quase aos joelhos se prestariam ao prazeroso trabalho de beijar - enquanto cobrisse - aquele corpo a emprestar silhueta perfeita a tudo que o veta para o mundo. Com gestos naturalmente sensuais e falsamente descuidados deixou que o roupão deslizasse até o carpete, revelando todo o fascínio havido no corpo feminino. Era uma verdadeira poesia, o seu corpo. Aquela poesia colorida e vibrante, terna e quente, simétrica e envolvente. Seu pescoço longo e nu, recoberto por penugem dourada, era a própria ventura encarnada. A languidez do pescoço terminava em ombros igualmente perfeitos e poéticos que pareciam querer suportar -e podiam!- toda a luxuria que exala de uma mulher.

Antes que vestisse a peça de roupa escolhida, seu corpo estivera livre de qualquer agasalho, aprisionado pelo véu do olhar de seu admirador secreto que transformara a frincha da porta em umbral para o paraíso. Por todo aquele tempo não estivera sozinha como supunha! As mãos do admirador, do intruso, esgueiraram-se para o meio das próprias pernas quase sem pelos e instalou-se a guerra surda entre o frêmito voraz e a cumplicidade do pecado que lhe corrompera as entranhas.

A pele morena, os cabelos, os ombros, as costas, as coxas... tudo que via - mais o que não via, porém complementava com a imaginação - se encaixava perfeitamente bem naquele momentâneo silencioso de vigília a que se propusera voluntariamente. O instante se valera pelo imaginário e pela presença viva e pulsante do membro que atraíra e capturara, rasgando... despedaçando a lógica da razão em favor de uma realidade antes inaceitável, porém freudianamente admissível e explicável. Sua mão se traíra, buscando o aconchego macio do ventre liso. O arrepio, inevitável! A cada deslizar de dedos um novo prazer se enfeixara aos outros, avolumando a necessidade de explodir em gozo que - se mal direcionado - se lançara pela direção correta das mãos a acariciarem.

O sangue latejara-lhe nas veias, enquanto músculos, pouco a pouco, recompuseram-se ante seu olhar baço e pecador. Não tivera até então a noção exata de sua atitude. Tudo fora se avermelhando à sua volta em profusão de desejos. A carne adoçara sua saliva viscosa em lábios inocentes. A neblina libidinosa descerrara o véu da volúpia sobre seus olhos púberes que, inéditos percebedores das formas e da concepção de beleza feminina, ignoraram tudo o mais que não se referisse à sua musa e definira este tudo como veleidade a ser abandonada no lugar comum das coisas vãs e secundárias. Toda a química e a transformação natural do corpo se revelaram naquela primeira ejaculação rala e amarela a escorrer pelos pequenos dedos ainda segurando o membro mal desenvolvido e alheio a toda complexidade do momento, aninhado na palma da mãozinha trêmula.

Sonhara tanto durante o seu enlevo! Sonhara até mesmo ser um poeta.

Encantamento

Cada pensamento meu,
Mesmo que pareça vão,
Dita-me o chorar ou o sorrir
Quando você ri ou chora,
Ou quando você não ou não.
Pensar em você torna-se crucial
Pelos intermináveis instantes
Em que não a tenho comigo,
Ninando-me, desenhando-me.
E por ser tão repetitivo de gestos
Perco-me pelas minhas mãos
Querendo moldá-la em mim.
Mas eis que inútil pretensão!
Você já é completa por si,
Repleta de si e de mim
E de meus sonhos
E de tantos outros sonhos
Que não são meus!
Querer estar com você
Não é penitência.
É sublimação!
É razão aliada à loucura
De querer ser santo,
Quando sou apenas homem...
De querer ser deus
Quando sou criatura!

Eclodira o ovo de sua puberdade! A partir de então passaria a negar toda forma de inocência. Brinquedos, antes cuidados com esmero incomum, perceber-se-iam desleixados e empoeirados na sua inutilidade. Os olhos passariam a ser furtivos, angulares e maliciosos, na plenitude viril da nova e excitante etapa de vida. A vergonha e o medo do pecado repousariam à sombra envolvente do desejo recentemente descoberto. Mais detalhista, passaria a vislumbrar novas formas e cores por onde andasse. E todas elas se convergiriam para o instante primeiro do desejo suscitado, quando os estímulos dispararam o coração e enrijeceram músculos então com vida própria e extremamente dominadores.

O momento de voltar da escola seria único e aguardado com ansiedade. A escadaria, a portaria, o elevador, o quarto, a porta entreaberta, o barulho da ducha e do secador... puro erotismo e sedução com hora e lugar marcados, rotineiramente. Transformar-se-ia em rito! Mesmo depois de muitos anos, com certeza, haveria de repetir, um por um, os passos e gestos executados no quarto de fêmea que a fresta revelara. O filme se passaria religiosamente igual, sempre compassado. E o arrependimento presumível não emergiria da calda leitosa do êxtase sufocante. O instante valeria pela crua exposição e pouco se importaria se um dia tivesse de solicitar uma expurgação. Pouco lhe importaria as marcas indeléveis do pecado que ninguém haveria de aceitar ou permitir que dele se redimisse.

Um dia, quiçá, lá estaria ele, olhos e membros visitando o que poderia haver de mais íntimo. Pele e suor violando o sacrário feminino, golpeando a consciência, desmistificando leis celestiais em tépido leito terreno. Antropófago, se revolveria e se revigoraria nas vísceras do prazer que a carne da fêmea suscita. Se tudo, um dia, fosse convertido em apenas lembranças de seu primeiro de tantos pecados, seria o sinal de que atravessara aquela fase do inconsciente revoltando-se contra os ritos e mitos e misticismos que serviam somente para evocar o arrependimento que não regara. Nem consciência ou sensatez cultivaria mais!

Seu mundo absorveria o mínimo que lhe sobrasse daquele culto silencioso à mulher amada na surdina. O cheiro, o tato, o gosto e o gozo, naqueles dias remotos, mesmo sendo frutos de sua imaginação, converter-se-iam em pitadas de sal para o batizado do homem remido de uma inocência hipócrita e inútil.

Paulo Pazz, formado em Letras no ano de 2001, pela UFG, representante comercial, apaixonado pela literatura em lingua portuguesa, 44 anos, autor do livro de poemas "Palavra Lavrada".