Mostrando postagens com marcador Leituras de Clarice Lispector. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Leituras de Clarice Lispector. Mostrar todas as postagens

16 dezembro 2010

O envelhecimento feminino em “Mas vai chover”


Por Beatriz Dantas e Elisângela Borges

Clarice Lispector, indiscutivelmete, foi uma grande escritora, suas principais obras foram romances, crônicas e vários contos. Dentre seus contos mais famosos estão os quatorze que compõem A via crucis do corpo, que foram publicados em 1974, considerado pela crítica como “obra menor” da autora. E para se defender dos ataques, ela disse que as histórias foram feitas sob encomenda e que, contrariando sua vontade inicial, aceitou a tarefa por puro impulso.

O conto “Mas vai chover”, descreve a Sra. Maria Angélica de Andrade, de 70 anos, mulher rica, que se sente sozinha, sexualmente excitada e para escândalo da sociedade em que vive, resolve tomar por amante Alexandre, um jovem de 19 anos, o qual trabalha numa farmácia e faz entregas a domicílio: “E deparou-se com um jovem forte, alto, de grande beleza” (p. 75) e “Ele era a força, a juventude, o sexo há muito tempo abandonado” (p. 75). Ela seduz Alexandre com o seu dinheiro: “Venha para a cama comigo...” e “Eu lhe dou um presente grande! Eu lhe dou um carro”. O jovem se presta a esse papel visivelmente interessado no dinheiro de Maria Angélica, a qual passa a ser vítima da exploração financeira e emocional do rapaz.

A velhice, em nossa sociedade, tem sido tratada com grande preconceito, pois somente o belo e a imagem exterior são valorizados, características que na maioria das vezes são associadas à juventude. O assunto do envelhecimento do corpo, principalmente o envelhecimento do corpo feminino e sua sexualidade, são temas pouco discutidos, vistos como inexistentes ou inadequados na maioria das vezes, devido ao preconceito existente.

A mulher velha é tida como alguém que não mais sente desejo e, se sente, não é vista como alguém digna de tê-lo satisfeito. Nossa sociedade é centrada na beleza do que é jovem, principalmente no que diz respeito à mulher. Há um forte estigma que desvaloriza a mulher mais velha. Normalmente, a vida sexual de uma mulher mais velha é alvo de chacotas, comentários, especialmente quando se trata de um relacionamento com homem mais jovem (LIMA, p. 01).
           
Conforme Barbosa, as pessoas de idade têm os seus desejos bloqueados quando deixam de exercer suas funções sociais, o que consequentemente provoca uma degradação precoce. Foi a partir do processo de industrialização no século XIX, onde as cidades se urbanizam com uma população predominante de operários, que os velhos se tornam inúteis para uma sociedade industrializada, do ponto de vista do trabalho e do sexo.  Com as sociedades altamente industrializadas, no decorrer do século XX, a velhice é cada vez mais rejeitada.

De um modo geral, as variadas representações da senescência são determinadas pelas classes sociais. Nas camadas pobres, muitos velhos, ao perderem a capacidade produtiva, tornam-se um fardo para a família e são abandonados em asilos; os que perambulam, “caducos”, pelas ruas são objetos de mofa da criançada. Já nas famílias de classe media, perpetuando a figura romântico-burguesa do avô bonachão, o ancião se torna mero cúmplice dos netos, um divertido companheiro de brincadeiras, sem poder para decidir sobre seu destino e o dos familiares. Nos estratos ricos da sociedade entretanto, o velho que possui bens é, muitas vezes, venerado por interesse, e continua a exercer, de certa forma, seu poder e sexualidade, embora estes sejam veladamente ironizados pela família e pela sociedade (BARBOSA, 2003, p. 88).

O desejo de Maria Angélica pelo jovem Alexandre cresce gradativamente ao longo do conto, ele se aproveita disso e a explora cada vez mais, até que chega a lhe pedir um milhão de cruzeiros. Como ela não tem como dar essa quantia ao rapaz, ele então resolve abandoná-la: “Sua velha desgraçada! Sua porca, sua vagabunda! Sem um bilhão não me presto mais para as suas sem-vergonhices!” (p. 78). As consequências desse relacionamento são desastrosas para ambos, Alexandre, nunca mais pode ser o mesmo, aos vinte e sete anos ficou impotente, e Maria Angélica se sentiu rejeitada e explorada pelo rapaz.

Referências:
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
PIRES, Maria Isabel Edom. Formas e dilemas da representação da mulher na literatura contemporânea. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.
BARBOSA, Maria José Somelarte. Passo e compasso: nos ritmos do envelhecer. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
LIMA, Susana Moreira de. A obscenidade da velhice feminina: o rompimento do olhar na literatura. Disponível em: http://www.fazendogenero.ufsc.br/7/artigos/S/Susana_Moreira_de_Lima_13_A.pdf

O corpo e seus desejos extravagantes



Por Fernanda Peixoto

Amparada pelo dom magnífico de inusitar o habitual, Clarice Lispector, através de seus escritos, proporciona uma literatura transcendente, misteriosa, inconstante, obrigando seu leitor a ler e reler diversas vezes um mesmo texto, dispondo-se a mergulhar nas entrelinhas, no vão das histórias que ela nebulosamente constrói.  Suas tramas retratam o cotidiano, as passagens habituais de pessoas comuns, porém o mistério está na forma como estas rotinas são descritas.

Como salienta Clenir Bellezi de Oliveira, “seus personagens, gente comum, às voltas com o dia-a-dia magro, sofrem a fissura de um imprevisto qualquer que os transtorna, crispando-os, desequilibrando-os. O que move esse desequilíbrio é a súbita revelação de algo fundamental que permanecia, até então, adormecido” (Oliveira, 2007, p. 36). O recurso do diferente, do inusitado, não está na linguagem, que por sinal se apresenta simples e conhecida, nem em fatos incomuns, mas sim no espaço abstrato de uma palavra para outra, de uma frase, de um parágrafo; naquilo que não está dito, mas sugerido; no interior mais distante e escondido, às vezes escondido de si próprio; nas entranhas  do não pensado, do não imaginado, do banido. 

Desbravadora do interior, um tema que não poderia deixar de ser um sucesso em meio às suas mais variadas produções seria o corpo humano, palco de tantos mistérios e questionamentos. No conto “O corpo”, por exemplo, sentimentos e sensações como desejo, virilidade, erotismo, arrependimento e satisfação, infração ao lícito, às poderosas regras sociais, temas estes tão abordados por Clarice, tornam a história intrigante e como de costume, inusitada.

A história gira em torno de um homem forte e rude que possui uma relação bígama com duas mulheres, além de uma terceira prostituta. O protagonista mostra-se fascinado pelos desejos mais ardentes do corpo, tornando-se um fanático por sexo. O erotismo é o cerne desta relação múltipla. Os desejos mais impulsivos controlam o dia-a-dia e as ações dos personagens. Xavier, o protagonista, se não tem seus desejos fomentados pelas duas esposas, procura a prostituta, que seria no caso a terceira; e se as duas esposas não o têm para também atenderem-nas, consolam-se entre si, excitando e fazendo amor, “amor triste”, pois não são homossexuais.

O desfecho trágico e ao mesmo tempo passional da história é resultado das inconstâncias psicológicas dos personagens, que se envolvem em traições e desejos de vingança, qualidades típicas das criaturas de Clarice, que, como destaca Clenir, “vivem em estado crítico de sensibilidade e de urgência. Sentimentos de solidão, de abandono, de culpa, de júbilo e, sobretudo, de auto-enfrentamento promovem uma ruptura com a imaginação que traziam de si e da realidade circundante, revelando a precariedade de sua condição, as carências e, muitas vezes, o que existe para além da falsa estabilidade do cotidiano”(Oliveira, 2007, p.36).

O homem de nome Xavier é morto com vários golpes de facão pelas duas mulheres que viviam com ele após ter seu caso com a prostituta descoberto. A morte do companheiro representa para as duas mulheres a realização do desejo de vingança. Como não puderam tê-lo apenas para elas, resolveram matá-lo, ficando assim elas e a amante sem ele. No entanto, segundo Bataille, “a paixão é designada por um halo de morte”. (Bataille, 2004, p. 34). Conforme sua tese, a morte permitiria a continuidade de dois seres descontínuos; seria a solução, a forma encontrada pelo amante de manter a pessoa amada em sua posse. Seríamos seres descontínuos, ou seja, indivíduos que não possuem continuidade, que se vêem limitados pelo tempo, mas que quando mergulham em uma paixão, são invadidos por um desejo insano de continuidade, de infinidade, além de um sentimento de posse, de egoísmo, e seriam justamente estes desejos que nos moveriam, que nos conduziriam aos atos mais imprevisíveis, atos como o delas, de matarem em uma noite estrelada e ao som do piano de Schubert, o grande amor.

A ironia do desfecho é o descaso do policial após descobrir o corpo. Para se livrarem do assassinado, enterram-no no jardim e plantam por cima da cova uma grande e bela roseira, que mais tarde é destruída brutalmente pelos policiais, convocados ao local pelas suspeitas do secretário de Xavier. Ao invés de prender as duas criminosas, o policial lhes sugere uma viagem a Montevidéu, para que elas não lhe dêem mais amolação, e isso, para evitar o “barulho” que um crime como aquele poderia causar.

Assim, neste conto, o corpo seria ao mesmo tempo objeto de salvação e perdição. Salvação quando instrumento de consumação de prazeres; e perdição quando causa da própria morte.
           
Referências:
BATAILLE, Georges. O Erotismo. Trad. Cláudia Fares. São Paulo: Arx, 2004.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco,1998.
OLIVEIRA, Clenir Bellezi de. Revista Discutindo Literatura. Clarice Lispector: um olhar sobre a obra de uma das divas das letras brasileiras. Ano 3, N° 14. São Paulo: Escala Educacional.

Mas vai chover: o desejo sexual feminino na velhice



Por Patrícia Mendes

A história contada nesse conto é a de Maria Angélica de Andrade, uma senhora de 60 anos rica e viúva que se apaixona por um jovem de 19 anos. Alexandre era entregador de produtos farmacêuticos, jovem forte, alto e de grande beleza. Ela compra o rapaz em troca de sexo e o transforma em seu amante. Nesse conto, percebemos a inversão dos papéis do homem e da mulher, discordando da visão tradicional sexual de que o papel ativo seja do homem e o passivo da mulher, onde o homem é que toma a iniciativa:

– Só deixo você sair se prometer que voltará! Hoje mesmo! Porque vou pedir uma vitaminazinha na farmácia...
Uma hora depois ele estava de volta com as vitaminas. Ela havia mudado de roupa, estava com um quimono de renda transparente. Via-se a marca de suas calcinhas. Mandou-o entrar. Disse-lhe que era viúva. Era o modo de lhe avisar que era livre. Mas o rapaz não entendia. [...] Levou-o a seu quarto. Não sabia como fazer para que ele entendesse.
Disse-lhe então:
– Deixe eu lhe dar um beijinho!
O rapaz se espantou, estendeu-lhe o rosto. Mas ela alcançou bem depressa a boca e quase o devorou (1998, p. 86).
A protagonista age de acordo com o que sente, é movida pelo desejo, preocupa-se apenas em satisfazer seu corpo, é ousada, não se importando com que os outros pensem dela, enfrenta o medo e a vergonha, está apaixonada e acredita que é correspondida pelo Alexandre.

Nesse conto, Clarice Lispector expõe o drama íntimo da mulher na velhice, a sua sexualidade e seus desejos, que são encarados pela maioria das pessoas como inexistentes. Ao nos depararmos com uma senhora em pleno vigor sexual isso nos causa estranheza, pois estamos acostumados a associar o belo, o erótico com a juventude. É interessante lembrar também que esse conto foi escrito na década de 70 quando a repressão e o preconceito da sociedade eram maiores em relação a um romance entre uma mulher mais velha e um jovem mesmo que por dinheiro.

Bataille, em seu livro O erotismo (2004), nos fala que os seres humanos fizeram da atividade sexual uma atividade erótica. Entendemos que as pessoas mantêm relações sexuais e amorosas umas com as outras, e a atividade sexual é um dos pontos principais para a existência, sendo o desejo uma experiência subjetiva e que não acaba na velhice.

O conto termina com uma Maria Angélica apática dizendo: “Parece – pensou – parece que vai chover”, ao colocar um ponto final nas extorsões do amante.

Referências:
BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradução de Cláudia Fares. São Paulo: Arx, 2004.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
BAILEY, Cristina Ferreira-Pinto. O corpo e a voz da mulher brasileira na sua literatura: o discurso erótico de Márcia Denser. Disponível em: http://www.cronopios.com.br /site/ensaios.asp?id=128. Acesso em: 05 dez 2010.

27 novembro 2010

Antes da ponte Rio-Niterói, de Clarice Lispector



Por Clayre Cristina Cardoso

Este é um conto um pouco confuso, narrado em primeira pessoa, constituído por várias histórias picantes, com um tom de fofoca que caracteriza a narrativa, e que faz uso de estruturas do cúmulo e da ironia do destino. É um conto considerado kitsch. Herman Brocha (1973) afirma “que o kitsch resulta de uma perversão do sistema da arte realizada por meio de uma racionalidade técnica voltada para o lucro comercial e/ou para a propaganda de sistemas de valor alheios ao campo específico dos valores da arte. No kitsch, haveria uma substituição da categoria ética pela categoria estética degredada em efeitismo”.

Neste conto, Clarice Lispector interage com o livro A hora da estrela, fazendo construção com o dialogismo.  A narradora, usa um tom despojado, da oralidade de quem conta causos e fofocas, frustando o leitor com a idéia de uma realidade traumática,vivida pela suas personagens.

Clarice Lispector descreve em seu conto situações inusitadas e grotescas, trazendo, conflitos amorosos, como traição, no caso do pai que era amante da mulher do médico.
Pois é.  Cujo pai era amante, com seu alfinete de gravata, amante da mulher do médico que tratava da filha, quer dizer, da filha do amante e todos sabiam, e a mulher do médico pendurava uma tolha branca na janela significando que o amante podia entrar. Ou era toalha de cor e ele não entrava (Lispector, 1998. p. 57).
Há também, a vingança e a violência; por ciúmes, a mulher jogou água quente no ouvido de Bastos.  Segundo Bataille (1980, p. 91-92) a violência de um propõe-se a violência do outro. De ambos os lados trata-se de um movimento que obriga a sair para fora de si, para fora da descontinuidade individual.
Bem. A mulher teve ciumes e enquanto Bastos dormia despejou água fervendo do bico a chaleira dentro do ouvido... (Lispector, 1998, p.58).
Para Angelica Soares (1999, p. 27), “sabemos que embora o erotismo seja um dos aspectos da vida interior do ser humano, este busca fora de si um objeto de desejo”.

Podemos perceber então que apesar do erotismo ser uma busca interior do ser humano, o homem não deixa de buscar o físico exterior do outro, pois como cita o conto, por ironia do destino, Bastos que havia terminado seu noivado, porque a noiva havia amputado a perna e ele que não perdoava defeito físico, acabou ficando surdo. Este é um conto que faz uso de uma série de clichês, que são consubstancias às personagens – todas estereótipos.

Clarice Lispector cria um efeito de confusão com as histórias por ela contadas que acaba atraindo o leitor, que acaba o conto dizendo que nao soube de mais notícias, reforçando a idéia de fofoca.

Referências:
SOARES, Angelica. A paixão emancipatória: vozes femininas da liberação do erotismo na poesia brasileira. Rio de Janeiro: DIFEL, 1999.
ALEXANDRIAN. História da literatura erótica. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Melhor do que arder



Por Eliane Canedo

Este conto conta a história de madre Clara que vivia no convento, por exigência da família, e com o passar do tempo ela foi se descobrindo e viu que não era aquilo que ela queria.

Sonhava com homens e queria mesmo era casar, isso foi mesmo o que aconteceu porque ela tanto fez  que foi embora do convento. E logo conheceu um homem e se casou e teve vários filhos...

O conto nos faz voltar a um tempo em que moças de família eram obrigadas a viver no convento por imposição dos pais, assim escondendo os desejos das moças... Isso podemos relacionar ao que se chamaria hipótese repressiva sobre a qual podem ser levantadas três duvidas. Primeira dúvida:  a repressão do sexo seria, mesmo, uma evidência histórica? O que se revela numa primeira abordagem e que autoriza, por conseguinte, a colocar uma hipótese inicial... Um regime de repressão ao sexo.  

Clara foi levada a um mundo de devoção a Deus, no qual ela fielmente tentou manter-se, mas com o tempo o desejo foi aumentando e ela, não aguentando aquele desejo de sexo, de conhecer um homem, foi levada a abandonar a vida religiosa que nada tinha em comum com ela, era mesmo por causa da família que ela se deixou levar ao convento.

A repressão acontece desde a época das sociedades burguesas do XVII, sempre, às vezes somos obrigados a fazer coisas que não queremos, só para o bem estar de alguns (na maioria família). E até hoje se vê isso, pois nós mulheres somos criadas ou para ser dona de casa e esposa perfeita ou ir para o convento e seguir uma vida religiosa. Ainda bem que a repressão está diminuindo, a mulher de hoje está totalmente independente profissionalmente e aumentando sua autoestima e seu potencial.

Referências:
LISPECTOR, Clarice. Melhor do que arder. In: ______. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. 
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

A língua do P

Por Lana Alves

O conto “A língua do “P” pertence ao livro A Via Crucis do Corpo (1974), de Clarice Lispector. Escritora nascida na Ucrânia e que ainda pequena veio para o Brasil com os pais. Em 1943, terminou a Faculdade de Direito e escreveu Perto do Coração Selvagem, seu primeiro romance.

O conto “A lingua do “P”, narra uma experiência incômoda da personagem Cidinha, que faria uma viagem de trem de Minas para o Rio de onde embarcaria para Londres, no entanto, no decorrer da viagem entram no trem dois homens que começam a encará-la e a dizer algo, que ela percebeu que se tratava dela, em uma língua um tanto estranha de início, e que mais tarde ela percebera se tratar da língua do “P”, língua que tentava encobrir o desejo deles por Cidinha. Falavam nessa língua para que ela não compreendesse do que se tratava, ou melhor, para que a vontade deles prevalecesse pois eles, sendo homens, ocupam um lugar privilegiado no âmbito da expressão da sexualidade. Fica bem caricaturizada a forma como as figuras de poder usam do discurso sobre o sexo para seu benefício, isso também acontece em outras esferas, como no que se diz de repressão, que se desdobra na apropriação por parte de quem se diz habilitado a tratar, dominar e passar sua versão sobre algo que considera danoso, que pode desestabilizar a ordem vigente.

Em “Nós, os vitorianos”, Foucault (1988) afirma que “os discursos sobre o sexo não se multiplicam fora do poder, ou contra ele, porém lá onde ele se exercia e como meio para seu exercício”. Quem fala dele dita suas regras, e foi o que aconteceu quando Cidinha agiu como se fosse uma prostituta com o intuito de afastar os homens, ao que eles entenderam como loucura, pois ela não mais estava na posição da mulher erotizada que faziam dela, ela não estava no padrão que planejaram, e como é histórico em se tratando de loucura, Cidinha é levada á prisão.

Na prisão, não tem palavras para explicar o que ocorrera, pois sua conduta, e o lugar de onde fala, de receptora apenas dos desígnios de quem pode tratar do assunto, não a gabaritam para falar sobre sua expressão, mesmo sendo uma expressão de protesto.

A “língua” que transmitiu a mensagem que tanto a aterrorizara, não tinha explicação racional. Essa língua também é a mesma que invade e ao mesmo tempo seduz algo “puro”, inocente, é uma necessidade imposta, um grito a um ser que jazia surdo, essa língua pode ser comparada, em certo nível, às exigência com as quais, em algum ponto, nos deparamos, um “despertar” sexual. Cidinha, sem ter como se explicar, é presa e insultada por três dias, juntamente com seu cigarro que compunha bem uma característica comum de conduta da personagem que outrora adotara.

Quando Cidinha começa a se revelar ao se descobrir, quando se insinua, entra no campo do que foi descrito no domínio da sexualidade como noção de mistério, ao qual Cidinha desafia ao se revelar, assumindo um lugar na noção de obscenidade (Paes, 1990).

Quando saiu, foi de volta ao Rio, de cara lavada, sem a maquiagem da libertina que acabara sendo por algum tempo. Mas se lembrava de que quando os homens falaram em currá-la, ela desejava ser currada, aí se demonstra que ela também tem “desejos”, algo aconteceu com os sentidos de Cidinha naquela ocasião de “perigo”, descobrira-se uma devassa.

Já no Rio, andando pelas ruas de Copacabana com suas novas constatações em mente, passou por uma banca de jornal e comprou um, e lia-se que uma moça foi currada e morta no trem, a mesma moça que a desprezou. E nisso se coloca o paradoxo, a “perversidade” que a moça nega lhe traz a morte e quanto a Cidinha que a aceita, vive com a impressão de que já se sabia assim; a moça, ao negar assumir conduta semelhante a de Cidinha e antes até, de negar a aparência dela, morre, visto que na verdade ela também devia possuir em si os mesmos elementos que Cidinha, mas os nega, pois ainda tem arraigados os parâmetros sociais da mulher que nunca deve ser vulgar.

Por outro ângulo, essa moça que ficava na estação e entrava no trem para ser violentada pode ser vista como a própria imagem de Cidinha, que despreza algo que lhe é comum, a sexualidade, resistência essa que é violentada e morta quando tem que representar a prostituta, que apesar de exagerado, é aí o símbolo de expressão da sexualidade. Cidinha conclui, aos prantos, que o destino é implacável; nisso podemos enquadrar não somente o destino da moça, mas o destino dela própria, que perdeu ali uma parte de si, quando adotou uma postura sensual, acaba “matando” uma parte pudica, e se descobre um tanto perversa por saber fazer trejeitos e usar sua feminilidade para despertar a atenção do sexo oposto, mesmo que nesse caso, não visando a sedução, e sim a repulsa por parte deles.

É notável nesse conto a importância da perversidade dos homens diante de seu objeto erótico, as moças “recatadas”, pois se esse objeto se mostra demais, salta a seus olhos e lhes convida, torna-se desinteressante. Aí se impõe a imagem erótica em lugar da pornográfica em face da perversidade, visto que, para ambos, Cidinha era uma imagem erotizada, incitava o desejo criado pelo interdito que, para Bataille (2004), é a essência do erotismo. Ela não traz em si elementos pornográficos, pois não é aquilo que de imediato lhes causa excitação se mostrando, pode assim ser, quando finge ser prostituta, a visão mais erotizada e não de nível pornográfico e é causa de impulsos perversos nos homens.

Referencias:
BATAILLE, Georges. O Erotismo. São Paulo: Arx, 2004.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco: 1998.

Hipótese repressiva para a sexualidade no conto “A língua do “P”



Por Marília Nunes Ribeiro

A repressão sexual, que era própria das sociedades chamadas burguesas, foi marcada principalmente no século XVII, chamado a “Idade da Repressão”. Nessa época, existia, principalmente sobre as mulheres, uma moral que reprimia a sexualidade, a sua prática era permitida dentro do casamento e na maioria das vezes era tolerada com sacrifícios pelas mesmas. Com a ascensão da burguesia, a repressão sexual faz funcionar a máquina do capitalismo, pois, para essa sociedade, mantendo o controle sobre o sexo, os interesses sobre as classes dominadas eram mantidos.

A sociedade burguesa faz algumas concessões sobre o sexo, como escreve Foucault (1988): “Se for mesmo preciso dar lugar às sexualidades ilegítimas, que vão incomodar noutro lugar: que incomodem lá onde possam ser reinscritas, senão nos circuitos da produção, pelo menos nos de lucro...” no caso seriam as casas de prostituição, por ecemplo, as zonas de tolerância onde tudo é permitido; fora desses ambientes, o assunto sexo se torna inexistente. 

No conto “A língua do “P” da autora Clarice Lispector, a personagem Cidinha passa por uma situação difícil e a única saída que encontra é se fingir de prostituta para se livrar dos bandidos. Depois de ter sido presa e solta pela polícia, Cidinha tinha uma preocupação: havia sentido vontade de ser estuprada pelos bandidos e diante desta descoberta a personagem disse: “Eu sou uma puta”, e isto a deixa arrasada, pois como já vimos anteriormente, esses pensamentos e desejos eram considerados como pecado e proibidos diante da sociedade e da igreja.

De acordo com Foucault (1988), “se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição, à inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e de sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada”.

Referências:
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edição Graal, 1988.
LISPECTOR, Clarice. A língua do “P”. In:______. A via Crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Melhor do que arder



Por Roberta Ferreira

O conto “Melhor do que arder”, de Clarice Lispector, narra a estória de uma madre, Madre Clara, que é obrigada pela família a ir para um convento, porém, sente desejos sexuais, e acaba por seguir os conselhos de um padre deixando o convento e procurando se casar, já que, segundo a Bíblia, é melhor casar do que arder.

Conforme afirma Foucault (1988, p. 9), até o início do século XVII, não existia tanta repressão com relação ao sexo, foi como passar dos tempos que o assunto virou tabu, algo indigno de ser comentado, e praticável apenas na intimidade dos quartos de casais: é essa repressão que se observa no conto.

No conto, a sexualidade é tratada de modo velado e sutil, em nenhum momento aparecem cenas ou termos que indiquem o ato sexual em si, nenhuma palavra obscena ou chula, ou sequer expressões de duplo sentido.

Apesar disso, o desejo sexual é o assunto principal do conto, repetidas vezes é retratada a necessidade que Madre Clara tem de se relacionar intimamente com um homem, dos desejos e de como ela tenta fugir deles: “Não podia mais ver o corpo quase nu do Cristo”; “Passou a dormir na laje fria”; “Foram passar a ardente lua de mel em Lisboa”.

A estória é permeada por um cunho religioso extremo, dentro do convento a madre é constantemente aconselhada a fugir de seus desejos e “mortificar a carne”, como se o sexo fosse um grande pecado, do qual se devesse fugir a qualquer custo. Mesmo sendo tão inerente à natureza humana, o desejo sexual é visto como se fosse algo de que se devesse envergonhar.

Pode-se notar, contudo, que a própria religião que obrigava a madre a fugir e se envergonhar de seus desejos, dá a ela a solução para suas frustrações, a relação sexual não é proibida quando ocorre sob a benção divina, isto é, entre um casal unido pelos sagrados laços do matrimonio. E é baseado nas palavras de Paulo no livro de Coríntios que o padre do convento aconselha a Madre Clara. “É melhor não casar. Mas é melhor casar do que arder” (lispector, 1998, p. 72).

Neste sentido, apesar de a madre admitir seus desejos e deixar o convento, ela não sai logo em busca de satisfação sexual, a religiosidade está tão clara neste conto que mesmo fora do convento ela manteve um vestuário simples, como o do convento, e o hábito de rezar, pedindo a Deus um homem; e mesmo ao encontrá-lo não cedeu logo aos desejos sexuais, primeiro casou-se.

No conto, não é retratado o ato sexual em si, mas apenas a necessidade que o ser humano tem de se relacionar sexualmente, e ainda que sexo seja o tema, ainda há muito pudor em retratá-lo.

Enfim, há um erotismo comedido no conto, as necessidades e desejos sexuais da personagem são retratados de maneira brilhante pela autora. A narrativa leva o leitor a pensar sobre o sexo, sem contudo ser baixa ou chula, já que erotismo e pornografia estão longe de ser a mesma coisa, já que a pornografia tende a retratar cenas e objetos obscenos e o erotismo apresenta expressões de sexo, sem contudo ser baixo ou chulo.

Sempre há de existir na literatura obras eróticas, que despertem a atenção do público leitor e toquem naquilo que ao longo dos tempos vem sendo tão reprimido, e ao mesmo tempo tão cobiçado, o sexo.

Referências:
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988
LISPECTOR, Clarice. Melhor que arder. In: ______. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

O poder da imagem



Por Júlia Graciele da Silva

O conto de Clarice Lispector, “Ele me bebeu”, é uma história que na época em que foi escrita provavelmente deixou muitas pessoas inconformadas, ou melhor, as pessoas não gostariam de ouvir falar, pois, de certa maneira incomodava a sociedade em geral, vista que a homossexualidade sempre foi um grande tabu. 

No conto, a homossexualidade é tratada de uma maneira sutil, a autora faz insinuações a respeito de Affonso Carvalho e Serjoca. Enfim, a narrativa leva-nos a entender que ambos se gostaram.

Em se tratando da personagem de Aurélia Nascimento, a autora nos apresenta uma mulher fútil, a qual está sempre preocupada com a aparência e status, deixando-se levar pelo outro, porém ao perceber que o homem pelo qual está interessada é cortejado por “outro”, que é seu amigo e maquiador, esta se sente muito mal.

O mal-estar de Aurélia no conto talvez aconteça por não entender o que está acontecendo a sua volta, pois o homem a quem quer conquistar preferiu seu amigo. Ou talvez por ser naquele momento que realmente descobriu quem era, sem maquiagem e sozinha.

O fato é que Aurélia não aceita este relacionamento, e tenta achar respostas em si mesma, quando tudo acontece ela percebe que nunca existira, que o que viveu foi uma farsa, a partir daquele momento ela se reencontra consigo mesma.

O título do conto pode ser explicado sob a seguinte lógica: Aurélia entende que Serjoca, ao maquiá-la, quer apagar a mulher que realmente existe e infundir outra em seu lugar.

Para Bataille (2004), a paixão é um sentimento que nos leva ao sofrimento, sendo a busca incessante pelo impossível, a personagem Aurélia é a prova desta afirmação. Ao ter convicção que não conseguiria conquistar o ser amado ela sofre e tem uma dupla decepção, uma causada pelo ser amado e outra por seu amigo e maquiador.

Referências:
BATAILLE, Georges. O erotismo. São Paulo: Arx, 2004.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. 

20 novembro 2010

O Corpo



O corpo é um conto que pertence ao livro A via crucis do corpo, de Clarice Lispector, no qual se retrata um triângulo amoroso que é bastante estável. Xavier, comerciante bem sucedido, vive na mesma casa com duas mulheres, que se respeitam e aceitam a situação com bastante naturalidade. A estabilidade das relações amorosas entre Xavier, Carmem e Beatriz é rompida quando elas descobrem que existe outra mulher na vida de Xavier: uma prostituta que ele visitava periodicamente. A partir de então, Carmem e Beatriz vão se afastando – pouco a pouco – de Xavier, ao mesmo tempo em que vão se tornando mais unidas. A monotonia do cotidiano aliada à decepção sofrida pelas duas mulheres faz com que elas, depois de uma reflexão sobre a impossibilidade de transcender a morte, decidam antecipar o inevitável, e terminam por deliberar a morte de Xavier – plano executado pelas próprias mulheres. Depois de alguns dias do desaparecimento de Xavier, a polícia é chamada e descobre que ele fora enterrado no jardim de sua própria casa. Surpreendentemente, os policiais decidem que o melhor a fazer é esquecer tudo aquilo e sugerem à Carmem e Beatriz que arrumem suas malas e se mudem para o Uruguai.

Serão mostrados, nesse texto, alguns elementos característicos da obra, sendo que, neste livro, é importante tornar visível outra autora, uma Clarice que as pessoas não conhecem, escrevendo contos eróticos, com outro uso de linguagem, a forma naturalista e as ações do corpo. No conto O corpo, o erotismo é um elemento que segue a construção da sexualidade feminina e masculina, sendo que o erotismo será discutido através da ação das personagens, podemos perceber que além do sentido erótico que os corpos têm, existe outra característica que torna o conto com um aspecto grotesco que vão desde a caracterização física dos personagens e permeia até os aspectos psicológicos, atingindo os pontos mais altos na ação dos personagens, ou seja, nos excessos, a exemplo do exagero do sexo, da comida, etc.

Segundo Mikail Bakhtin (1999, p. 22) [...] as imagens grotescas conservam uma natureza original, diferenciam-se claramente das imagens da vida cotidiana, preestabelecidas e perfeitas. São imagens ambivalentes e contraditórias que parecem disformes, monstruosas e horrendas, se consideradas do ponto de vista da estética “clássica”, na qual isto vem pertencer à estética da vida cotidiana preestabelecida e completa. Como podemos observar, o grotesco está diretamente relacionado à imagem do corpo.

No conto O corpo, o erotismo pode ser encontrado não somente na narrativa, mas também na caracterização das personagens masculinas e femininas, no ambiente e na linguagem; não se trata de uma obra sobre sexo, mas de um texto que nos leva a outras discussões, partindo inicialmente das implicações do eu, para posteriormente entrar em diálogo com o outro. Outro ponto que se relaciona ao erotismo no conto O corpo, é a questão da sexualidade não como o foco principal desta obra, mas sim como todo um jogo de sedução e desejos produzidos pelas personagens. Ou seja, o erotismo não só é um processo individual, mas também através das influências sócio-culturais adquiriu características diferentes para o sexo masculino e feminino. Percebemos que o erotismo perpassa em quase todos os sentidos do corpo humano. Segundo Georges Bataille: “[...] o olfato, a audição, a visão, mesmo o gosto percebem signos objetivos, distintos da atividade que eles determinarão. São signos anunciadores da crise. Nos limites humanos, esses signos anunciadores têm um valor erótico intenso. Uma jovem nua é às vezes a imagem do erotismo” (1987, p. 122).

Pode dizer que o erotismo feminino se revela através do toque, da beleza, do olhar, do falar, enfim da sedução, que pode ser apenas uma sensação ou até mesmo a concretização do ato da conquista.


Pode-se falar em linguagem erótica porque o erotismo circunscreve-se no social, é codificado por meio de regras, combinação de elementos – os signos – que significam uma convenção e realiza-se como expressão de elementos que se combinam no corpo e representam modos de pensá-lo e de significá-lo (Camargo et al., 2002, p. 40). Sabemos que estes signos podem variar de acordo com determinadas culturas, porém o erótico, em todos os lugares do mundo, é conhecido e vivenciado de alguma forma pelos sujeitos. Como toda linguagem, a erótica também é passível de mudanças, altera-se conforme as transformações sociais. Entretanto, seu caráter universal permanece imutável ao longo da história da humanidade. O que muda são as interpretações a respeito do mesmo fenômeno (Camargo et al., 2002, p. 41).

Assim como afirma Bataille: “o erotismo só pode ser objeto de estudo se, em sua abordagem, for o homem o abordado” (1987, p. 8). Ou seja, primeiramente, o erotismo se faz de modo particular para depois se expandir para o coletivo.

Referencias:
ALBERONI. Francesco. O erotismo: fantasias e realidades do amor e da sedução. São Paulo: Círculo do Livro, 1986.
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec; Brasília: Universidade de Brasília, 1999.
BATAILLE. Georges. O erotismo. Porto Alegre: L&PM, 1987.
CAMARGO, Francisco Carlos; HOFF, Tânia Márcia Cezar. Erotismo e mídia. São Paulo: Expressão &  Arte, 2002.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

A ars erotica no conto Melhor do que arder, de Clarice Lispector



Por Kívia Alves da Silva

Para produzir a verdade do sexo, existem basicamente dois grandes procedimentos: ars erotica e scientia sexualis (Foucault, 1988). Neste texto, focaremos apenas o primeiro procedimento, tentando mostrar a ars erotica no conto de Clarice Lispector, “Melhor do que arder”.   

A ars erotica, como um dos modos de se produzir as verdades do sexo, constitui-a na extração do próprio prazer, encarado como prática e recolhido como experiência. O prazer, adotado aqui como objeto de estudo, recai sobre a própria prática sexual para trabalhá-la como se fosse de dentro e ampliar seus efeitos. Essa prática deve ser mantida de forma discreta, pois, segundo a tradição, perderia sua eficácia e sua virtude ao ser divulgada.

A ars erotica é uma forma de mostrar o sexo de uma maneira diferente do que se pensava, não como uma forma proibida e até mesmo um pecado, mas sim como um prazer, que quando praticado de forma demorada e intensa, vai se refletir no corpo e na alma.

No conto de Clarice Lispector, a protagonista Madre Clara sente o fogo e o calor do desejo, ela faz de tudo para que esse desejo vá embora, mas é vencida por ele e acaba saindo do convento para ir à procura de um homem para se casar e, enfim, matar seu desejo insaciável. Demora um pouquinho, mas ela acaba encontrando um português chamado Antonio, dono de um botequim. Eles se casam, passam a lua-de-mel em Portugal e voltam para o Brasil, ela grávida, satisfeita e alegre.

Percebemos a ars erotica no conto de Clarice a partir do momento em que a protagonista se sente realizada ao encontrar o que tanto procurava (sexo), e com essa realização ela encontra a alegria e se sente satisfeita, afirmando o que dissemos anteriormente, que a pratica do sexo se reflete no corpo e na alma.  

Na arte erótica, além de observarmos a prática do sexo como objeto de estudo, é notado algo que faz bem e que pode, como afirma Foucault (1988) ser elixir de longa vida e exílio da morte, pois a partir do momento em que nós nos sentimos felizes e satisfeitos nos distanciamos da vontade de querer morrer. Assim como Clara que deixa de ser uma madre infeliz para ser uma mulher feliz e satisfeita.      

Referências:
FOUCAULT, Michel. Historia da sexualidade I: a vontade de saber.  Rio de Janeiro: Gaal, 1988.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

[Re][Ex]pressão do comportamento feminino no conto Mais vai chover, de Clarice Lispector



O livro A via crucis do corpo é composto de contos escritos sob encomenda, que deveriam seguir a linha do erótico e que, no entanto, tratam de temas cotidianos como a velhice, a homossexualidade, a prostituição, a sexualidade e outros. São textos relatados em uma linguagem prosaica, clara e direta.

Nas páginas deste livro, o leitor é posto em contato com um mundo no qual a realidade é tratada por vezes de forma grosseira, tal como ela é. No conto Mais vai chover há a recorrência de um fato que é considerado um escândalo para a sociedade: Maria Angélica de Andrade, de 60 anos, toma por amante o jovem Alexandre, de 19 anos, este que é desrespeitado e desmoralizado no decorrer da narrativa.

Em um mundo em que a aparência jovem e bela é valorizada, pensar no prazer sexual de idosos seria um insulto aos belos, embora essa afirmação esteja carregada de preconceitos. Os velhos são aqueles vistos como pessoas aposentadas, vetados aos desejos e proibidos de tê-los ou senti-los.

Nesse conto, pode-se perceber que a velha senhora rompeu com esse preconceito e acreditou na possível relação que poderia ter com o jovem e se lançou a ela. Essa relação que se estabeleceu entre eles foi uma relação de desejo, pois Maria Angélica ao ver o “jovem forte, alto, de grande beleza” logo se permitiu a ousadia de oferecer-lhe uma xícara de café.

A partir daí a personagem é construída de emoções como tristezas, alegrias, prazer e através disto consegue amar aquela carne jovem sem temor nem pudores, embora isso causasse horror ao jovem, este que ficou impotente aos vinte e sete anos. Esse texto causa um estranhamento no leitor, pois a personagem da velha não cabe no conteúdo erótico do texto e acaba caindo no ridículo, por se tratar de um corpo velho em pleno auge do prazer do sexo, visto que comportamentos como esse não são vistos como normais em nossa sociedade.

Essa vontade de possuir e ser possuída não foi, e nem é, bem aceita quando parte do lado feminino, devido a preconceitos e repressões que a mulher sofre há muito tempo. Em um texto de Lúcia Castello Branco (2004) vê-se que é impossível falar de erotismo sem levar em consideração a “história de sua repressão”, pois em culturas como a ocidental, erotismo e repressão desenvolvem juntos suas histórias.

A autora observa que essa repressão varia de acordo com a cultura particular de cada povo. O Cristianismo, por exemplo, condena o erotismo e caracteriza a prática sexual como ato pecaminoso, enquanto que em religiões da civilização oriental, erotismo e religião caminham juntos, incluindo guias para a aprendizagem sexual, como o Kama-Sutra, este que é um manual de artes do amor em estilo hindu com diferenciadas “técnicas sexuais”. No entanto, este manual contém proibições sexuais direcionadas às mulheres, estas que devem ser boas esposas e devem ser acima de tudo, submissas.

Através da leitura do artigo O corpo e a voz da mulher brasileira na sua literatura: o discurso erótico de Márcia Denser (Bailey, 2005) observa-se que, conforme as mulheres escritoras mostram, o seu discurso contra esse tipo de tabu (repressão e erotismo feminino), vão encontrando uma linguagem própria sob as quais se expressam e, com o passar dos tempos, vão se descobrindo novas mulheres prontas para viverem e escreverem sobre o que elas gostam e querem como, por exemplo, a protagonista em discussão: “Venha para a cama comigo!”, “Maria Angélica dava gritinhos na hora do amor”. 

O livro em abordagem, apesar de ter sido polêmico na época em que foi lançado, acaba por revelar um conteúdo erótico ingênuo aos olhos contemporâneos, sob os quais o corpo é tratado como um meio/ suporte para prazer e felicidade e não mais como um escândalo ou algo parecido.

Referências:
CASTELLO BRANCO, Lúcia. O que é erotismo. São Paulo: Brasiliense, 2004. (Primeiros Passos, 136). LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 
BAILEY, Cristina Ferreira-Pinto. O corpo e a voz da mulher brasileira na sua literatura: o discurso erótico de Márcia Denser. On line. Disponível em: http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=128. Acesso em: 12 nov 2010.

O papel da confissão no conto “Melhor do que arder”



Por Flaviane Aparecida Tereza

Segundo as considerações de Michel Foucault (1988), desde a Idade Média, a confissão é considerada uma das maneiras mais importantes e eficazes para que se produza a verdade. Assim, a confissão foi ampliando seus efeitos e tomando novas formas em várias áreas como a justiça, a medicina, a pedagogia, as relações familiares e amorosas. Quanto ao ato de confessar, às vezes esse é executado por vontade própria e outras vezes se é forçado. Sobre a questão da sexualidade, pode-se dizer que vivemos em uma sociedade que sofreu muito e ainda sofre com o poder da repressão sobre o sexo, não raras vezes considerado como pecado se praticado fora dos locais legitimados (casamento, prostíbulos...).

No século XIX, essa associação do sexo ao pecado pelas normas sociais era muito forte e a pessoa que se sentisse pecadora por causa dos desejos carnais deveria então se confessar, ou a um amigo como forma de aliviar a consciência, ou ao padre para então receber o perdão de Deus. Para Foucault (1988), a Contra-Reforma se dedicou a aumentar as confissões, porque tentou impor regras para o exame de consciência de si mesmo, atribuindo cada vez mais importância à penitência como purificação do corpo em caso de pensamentos impuros e desejos sórdidos. A confissão fica sendo, então, um ritual em que se produz o discurso verdadeiro sobre o sexo. É também um ritual que estabelece uma relação de poder, pois não se confessa sem a presença de outro sujeito, o qual vai avaliar, julgar, punir ou perdoar aquele que confessa.

O conto “Melhor do que arder”, de Clarice Lispector, exemplifica bem essa questão do sexo reprimido e da confissão como alívio de culpa. Madre Clara, a protagonista do conto, morava em um convento por imposição da família, mas um dia se cansou de viver entre mulheres, confessou-se a uma amiga e começou a se mortificar, ficando até doente.

Porém, nada acabava com seus pensamentos sexuais e com os seus desejos de ser mulher. Mesmo se confessando todos os dias e fazendo penitências, o desejo carnal era mais forte, ela não podia sequer olhar mais para o Cristo nu, e assim seus dias se tornaram sofrimento e angústia. Confessou-se ao padre que, indignado, disse que era melhor casar-se então, porque, segundo a moral cristã, o casamento é um lugar legitimado para exercer os prazeres sexuais. Ela então vai embora do convento e se casa, realizando seus desejos carnais que antes eram reprimidos.

Referências:
FOUCAULT. Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
LISPECTOR, Clarice. Melhor do que arder. In:____. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998