20 novembro 2010

O papel da confissão no conto “Melhor do que arder”



Por Flaviane Aparecida Tereza

Segundo as considerações de Michel Foucault (1988), desde a Idade Média, a confissão é considerada uma das maneiras mais importantes e eficazes para que se produza a verdade. Assim, a confissão foi ampliando seus efeitos e tomando novas formas em várias áreas como a justiça, a medicina, a pedagogia, as relações familiares e amorosas. Quanto ao ato de confessar, às vezes esse é executado por vontade própria e outras vezes se é forçado. Sobre a questão da sexualidade, pode-se dizer que vivemos em uma sociedade que sofreu muito e ainda sofre com o poder da repressão sobre o sexo, não raras vezes considerado como pecado se praticado fora dos locais legitimados (casamento, prostíbulos...).

No século XIX, essa associação do sexo ao pecado pelas normas sociais era muito forte e a pessoa que se sentisse pecadora por causa dos desejos carnais deveria então se confessar, ou a um amigo como forma de aliviar a consciência, ou ao padre para então receber o perdão de Deus. Para Foucault (1988), a Contra-Reforma se dedicou a aumentar as confissões, porque tentou impor regras para o exame de consciência de si mesmo, atribuindo cada vez mais importância à penitência como purificação do corpo em caso de pensamentos impuros e desejos sórdidos. A confissão fica sendo, então, um ritual em que se produz o discurso verdadeiro sobre o sexo. É também um ritual que estabelece uma relação de poder, pois não se confessa sem a presença de outro sujeito, o qual vai avaliar, julgar, punir ou perdoar aquele que confessa.

O conto “Melhor do que arder”, de Clarice Lispector, exemplifica bem essa questão do sexo reprimido e da confissão como alívio de culpa. Madre Clara, a protagonista do conto, morava em um convento por imposição da família, mas um dia se cansou de viver entre mulheres, confessou-se a uma amiga e começou a se mortificar, ficando até doente.

Porém, nada acabava com seus pensamentos sexuais e com os seus desejos de ser mulher. Mesmo se confessando todos os dias e fazendo penitências, o desejo carnal era mais forte, ela não podia sequer olhar mais para o Cristo nu, e assim seus dias se tornaram sofrimento e angústia. Confessou-se ao padre que, indignado, disse que era melhor casar-se então, porque, segundo a moral cristã, o casamento é um lugar legitimado para exercer os prazeres sexuais. Ela então vai embora do convento e se casa, realizando seus desejos carnais que antes eram reprimidos.

Referências:
FOUCAULT. Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
LISPECTOR, Clarice. Melhor do que arder. In:____. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998

Miss Algrave, um conto de encomenda


Por Gisele Cristiane de Assunção

[...] Todas as histórias deste livro são contundentes e quem mais sofreu fui eu mesma. Fiquei chocada com a realidade. Se há indecências, a culpa não é minha. [...] Quero apenas avisar que não escrevo por dinheiro e sim por impulso (LISPECTOR, 1988, p. 11)



O livro “A via crucis do corpo”, de Clarice Lispector foi publicado em 1974. Essa publicação se diferencia das demais por ela publicadas, tendo em vista que trata de um tema que até então tinha sido pouco explorado por essa escritora e que representava e ainda representa um tabu para a sociedade: o sexo.

Clarice Lispector, ao ser despedida do jornal em que trabalhava, vê-se em um momento de grande dificuldade financeira, tendo que viver, a partir daí, somente de seus lucros como escritora. Com tal ofício, Clarice Lispector recebe uma proposta de um editor: escrever um conto, o qual hoje é conhecido como A via crucis do corpo. Esse livro, já sabia Lispector antes mesmo de escrevê-lo, foi muito censurado pela crítica literária da época, justamente por abordar questões relativas à sexualidade. ´

É interessante observar que na obra de Lispector, ao tratar sobre a sexualidade, ela faz uma mistura do profano com o sagrado. A esse respeito, Silva et al. (2007, p. 6) afirmam que “o diálogo com o tema religioso é iniciado pelo título que dialoga com o discurso bíblico da ‘via sacra’, ‘via crucis’, caminho da cruz e a relação entre o sagrado (via crucis) e o profano (do corpo) acontece no título A via crucis do corpo.”

O conto “Miss Algrave”, do livro A via crucis do corpo, de Clarice Lispector, narra a história de Ruth ou Miss Algrave, como era conhecida. Miss Algrave era uma datilógrafa cujas habilidades eram inquestionáveis, morava sozinha e tinha uma vida tranquila, mas era uma mulher muito solitária, seu corpo era solitário, ela era virgem... Ruth Algrave tinha uma vida de privações, tudo era controlado e passava severamente por seus julgamentos. Condenava as mulheres e até mesmo a estátua de Eros que aos seus olhos era uma indecência. “Quando passava pelo Picadilly Circle e via as mulheres esperando homens nas esquinas, só faltava vomitar. Ainda mais por dinheiro! Era demais para se suportar. E aquela estátua de Eros, ali, indecente” (p. 13).


Miss Algrave, tinha hábitos que lhe eram peculiares. Nas refeições, optava por macarrão com molho de tomate. Tomava banho só uma vez por semana, especificamente, aos sábados e para não ter que ver seu corpo, banhava-se de calçinha e sutiã. Essa prática demonstra que Ruth era uma mulher que tinha muito pudor e esse pudor avançava até sobre o seu próprio corpo a ponto de ela lamentar a incontinência de seu pai e sua mãe. “Sentia pudor deles não terem tido pudor” (p. 16). Ela se via, portanto, como resultado de um pecado da carne. A representação da carne é muito marcante no conto, em suas refeições, por exemplo, ela não ingeria carne porque considerava essa prática um pecado, que ela não queria cometer.  As suas refeições baseavam-se em frutas e legumes.

Com a solidão que a cada dia aumentava, Ruth tinha sensações nunca antes sentidas. Certa noite Ruth foi visitada por Ixtlan, um ser vindo de Saturno, que despertara nela os prazeres da carne. Miss Algrave libertou seus desejos, entregou-se por completo. E que sensação boa era aquela. Ela nunca tinha sentido nada parecido com o que sentiu naquela noite. Quando Ixtlan foi embora, Ruth sentiu saudade, seu corpo já estava entregue àquele ser que a visitou naquela ocasião. À espera de Ixtlan, Ruth sentia desejos, sua carne pedia que ele voltasse. Daquela noite, ela tinha apenas o lençol marcado pelo sangue, o sangue que representava a perda da sua virgindade. Mas isso não era o bastante. Miss Algrave havia mudado completamente, experimentava agora uma carne sangrenta, bebia vinho e já não achava pecado em tudo. Tudo era mais aceitável, mais compreendido.

Ansioso, o corpo não mais agüentava, precisava saciar-se, precisava de um homem. Um dia convidou um homem para ir ao seu quarto e não mais parou. Deixou a datilografia e se entregou de vez aos prazeres da carne. A carne, o seu desejo, a dominava. Pensou que após deitar-se com muitos homens, tomaria um banho purificador e esperaria nas noites de lua cheia por Ixtlan que viria de Saturno para saciar seus mais íntimos desejos.

As práticas sexuais de Miss Algrave nunca eram reveladas. Sobre isso, Foucault (1988, p. 57), diz que a prática sexual,
constitui-se um saber que deve permanecer secreto, não em função de uma suspeita de infâmia que marque seu objeto, porém pela necessidade de mantê-lo na maior discrição, pois segundo a tradição, perderia sua eficácia e sua virtude ao ser divulgado.
Miss Algreve estava interessante tão somente em seu prazer, havia conhecido as sensações que só o seu corpo em contato com outro podia lhe oferecer. Tinha vontade de carne, aspirava por ela. Estaria ela cometendo um pecado? Ela explica que não, pois era uma delícia. Inicialmente, o conto de Clarice Lispector trata da questão do desejo reprimido e do sexo visto como pecado. A respeito da sexualidade, vista sob a ótica da “burguesia vitoriana”, Foucault (1988, p. 9) afirma que a família conjugal a confiscava e absorvia, inteiramente, com a função unânime de reprodução.

Em outras circunstâncias, fora da união conjugal e a bel-prazer o sexo configuraria um pecado. Nessa lógica, cabe a ideia de repressão que foi acentuada com o surgimento do capitalismo e, consequentemente, com a ordem burguesa que via na realização sexual um “desperdício” de energia, o que contrariava o modo de produção que caracterizava o sistema capitalista da época.

Mas ainda, em tempo de repressão das manifestações sexuais, especialmente àquelas fora do âmbito matrimonial, havia concessões, havia pessoas (prostitutas) que eram legitimadas a exercer o sexo, bem como falar sobre ele. Sobre esse assunto Foucault (1988, p. 10) explica que “se for mesmo preciso dar lugar às sexualidades ilegítimas, que vão incomodar noutro lugar: que incomodem lá onde possam ser reinscritas, senão nos circuitos da produção, pelo menos nos do lucro.”


Por muitos anos, era proibido às mulheres até tocar o corpo e as práticas sexuais eram encaradas apenas sob o nível de reprodução. O sexo não poderia ser fonte de prazer, de satisfação carnal para a mulher e nem tampouco poderia se falar nele. Foucault (1988, p. 10) salienta que “o que não é regulado para a geração ou por ela transfigurado não possui eira, nem beira, nem lei. Nem verbo também. É ao mesmo tempo expulso, negado e reduzido ao silêncio.” Desde criança até a fase adulta esse deveria ser o comportamento ideal da mulher, o sexo deveria ser considerado algo pecaminoso e, em relações não legitimados, algo imoral. É interessante observar que apesar de em alguns instantes Miss Algrave negar as satisfações carnais ou qualquer outra ação que para ela se apresenta como pecado, a sua atenção estava a todo instante voltada para essas práticas, manifestada por outras pessoas ou mesmo animais.

Ao mesmo tempo em que ela repreendia o seu desejo sexual, ela tinha uma vontade de saber e, sobretudo, ainda que inconscientemente uma vontade de experimentar aquelas sensações. Se por um lado o sexo se apresentava como algo reprimido, por outro, despertava um desejo de cada vez mais avançar por esse campo, no sentido de se valer da repressão do sexo para então falar nele.
A respeito da repressão sexual, Foucault (1988, p. 12) salienta que
falar contra os poderes, dizer a verdade e prometer o gozo; vincular a iluminação, a liberação e a multiplicação de volúpias; empregar um discurso onde confluem o ardor do saber, - a vontade de mudar a lei e o esperado jardim das delícias – eis o que, sem dúvida, sustenta em nós a abstinação em falar do sexo em termos de repressão.
Na verdade, a questão da repressão do sexo sempre funcionou como um estímulo para se falar nesse assunto, uma vez que posto como “proibido” acaba justificando a contínua colocação do sexo em discurso. Dessa maneira, tem-se essa ilusão de que é proibido vagar, em algumas circunstâncias, como quer que seja, no campo da sexualidade. O conto “Miss Algrave’ aqui analisado, traz uma personagem que a princípio tem um comportamento de total repulsa ao sexo a até mesmo a origem da vida e depois há a entrega dessa mesma personagem aos prazeres sexuais. De fato, Algrave explorou os dois lados antagônicos que são sugeridos pelo título desse livro: o sagrado e o profano: “E quando chegasse a lua cheia, tomaria um banho purificador de todos os homens para estar pronta para o festim com Ixtlan”.

Referências:
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1988.
Lispector, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco: 1998.
SILVA, Alyne Cristina et al.  O riso irônico em A via crucis do corpo de Clarice Lispector. Franca, 2007. On line. 
Disponível em: http://www.facef.br/novo/letras/rel/edicao03/o_riso_ironico_crucis_de%20clarice.pdfAcesso em: 30 out 10.

17 novembro 2010

A representação da sexualidade em A via crucis do corpo

Por Laisa Gonçalves Teixeira

No livro A via crucis do corpo, de Clarice Lispector, o tema que parece central nas narrativas dos contos é a sexualidade, e no geral há o enfoque ao corpo feminino e tudo que seja a ele relacionado, como desejos, fantasias, afeto, erotismo e a vontade de obter prazer contrapondo-se com a repressão dos desejos carnais. 

Nos contos, as mulheres apresentam os desejos do corpo, algumas tentam negá-los de certa forma, enquanto outras querem vivenciá-los intensamente, como no conto “Melhor que arder” em que a personagem Madre Clara é obrigada a entrar no convento, mas ela aos poucos foi se cansando de viver somente entre mulheres, ela queria sair daquele local, encontrar um homem e se casar, não aguentava mais ter que mortificar o seu corpo, e assim fez: arrumou suas malas e foi embora do convento. Clara ficou a espera de um homem, que um dia encontrou, com ele se casou e teve quatro filhos homens. Portanto, Clara não quis abrir mão daquilo que seu corpo gritava.

A autora toca em temas tabus, relativos à sexualidade. Mas falar sobre desejos sexuais, sobre as vontades do corpo não é algo tão fácil, pois essas questões não podem ser ditas sem serem passadas pelo crivo do pudor, tendo em vista ainda que quem construiu os discursos dentro das narrativas dos contos é uma escritora, sendo ela e suas personagens representantes do feminino e de suas interdições. Foucault (1988) caracteriza muito bem como o discurso a respeito da sexualidade deve ser circulado, de acordo com os códigos estabelecidos pelo ocidente cristão: primeiramente, para falar sobre o sexo deve-se apropriar de uma linguagem codificada, filtrar as palavras, controlar as enunciações, definir o momento, a situação e a forma mais adequada e discreta para se falar, caso contrário deve-se manter o silêncio absoluto. Então, por não poder falar sobre o sexo sem nenhum pudor ou discrição, Clarice traz inicialmente o seu conto “Explicação” para que ela justifique o que está sendo escrito. É necessário que ela se explique para não ser julgada, sendo esta a estratégia utilizada pela escritora para ter seu livro em circulação e evitar possíveis escândalos.

Há, de certa forma, no livro A via crucis do corpo uma crítica intrínseca feita a nossa sociedade, sendo ela caracterizada como opressora dos desejos, e diante dessa repressão sexual a mulher parece ser quem mais experimenta seus efeitos, pois, no discurso, ela é representada como um ser puro e que não deve ser tomada pelos impulsos do desejo.

Isso pode ficar mais claro se for feita a referência ao conto “Miss Algrave” em que a personagem se vê na obrigação de rejeitar os seus desejos, ela era virgem, não comia carne porque considerava ser um pecado, sentia-se mal ao passar por uma rua em que havia prostitutas, nunca alguém havia tocado os seus seios, nunca havia frequentado um pub, tomava banho uma única vez por semana para não ter que ver seu corpo nu, e quando fazia a higienização do corpo não tirava a sua calcinha e nem o sutiã. Ela era uma mulher religiosa, quando via casais se acariciando procurava não olhar, achava tudo isso horrível e o mais cômico era ela lamentar por ter nascido da incontinência de seu pai e sua mãe, ela sentia pudor deles não terem tido nenhum pudor. Mas a personagem, ao ter uma experiência sexual com um ser (não fica claro se é um ser humano, ou o que seja) chamado Ixtlan percebe que toda aquela repressão era inviável, pois o prazer que se poderia obter com o corpo era extraordinário e se caracterizava como algo pulsante e que não deveria ser negado.

A escritora, nos seus contos, brinca o tempo todo ironizando o modelo padrão dos comportamentos sexuais e das relações afetivas socialmente esperadas e em cada história narrada subverte o que seria uma sexualidade aceitável. Clarice escreve a história de uma freira, Madre Clara, que tem desejos sexuais, retrata uma senhora de sessenta anos, Maria Angélica de Andrade, que tem um amante de dezenove anos. No conto “O corpo” há a presença de uma relação de bigamia, Xavier vivia com duas mulheres, Carmem e Beatriz. No conto “Via crucis”, Maria das Dores engravida fora do casamento, isto fica implícito durante a leitura. Em “Ele me bebeu”, o personagem Serjoca está interessado por outro homem, Affonso, que aos poucos foi correspondendo aos desejos do rapaz.

No conto “Ruído de passos” há uma idosa, Cândida Raposo, que tem o “desejo de prazer” e que vai ao médico para saber o que pode ser feito para que a vontade do corpo passasse, e ela dizia que na sua idade, oitenta e um anos, ninguém mais a queria, então não sabia o que fazer, mas ela encontra como saída, “remédio”, a prática masturbatória. Essa personagem problematiza o desejo feminino na terceira idade, como se o corpo envelhecido não pudesse mais desejar, gerar prazer e ser alvo de desejo do outro. Além disso, há outra questão, o tabu da masturbação de uma mulher.

Enfim, a autora critica de forma irônica ao longo da obra a normatização da sexualidade e os dispositivos existentes de controle e disciplina da mesma, por isso que ela retrata aquilo que é malvisto pela sociedade no campo da sexualidade, ou seja, aquilo que foge à “norma”, como por exemplo, o desejo feminino, o desejo de mulheres na terceira idade, o desejo homossexual, o desejo bígamo, desejo de freira, entre outros.

Clarice Lispector problematiza, no decorrer do seu livro, a repressão sexual, podendo entender esta como consequência da concepção cristão em que a sexualidade está atrelada ao pecado e a imoralidade.  Foucault (1988) fala como foi crescente a valorização da confissão da carne no século XVII, na qual os sujeitos cristãos deveriam fazer um exame de si mesmo, dos seus sentidos, das suas vontades, dos seus pensamentos, dos sonhos, dos desejos e das ações. Associada à confissão se tem a penitência, em que o sujeito deve infligir a seu corpo sofrimento, pois ele é sinônimo de pecado. No conto “Melhor que arder” fica evidente essa ideia de punir o corpo por este ser a origem de todos os pecados:
E se confessava todos os dias. Todos os dias a hóstia branca que se desmanchava na boca.Mas começou a se cansar de viver só entre mulheres. Mulheres, mulheres, mulheres. Escolheu uma amiga como confidente. Disse-lhe que não aquentava mais. A amiga aconselhou-a:- Mortifique o corpo.Passou a dormir na laje fria. E fustigava-se com silício. De nada adiantava. Pegava gripes fortes, ficava toda arranhada. Confessou-se ao padre. Ele mandou que continuasse a se mortificar. Ela continuou (LISPECTOR, 1984, p. 81).
Portanto, o livro A via crucis do corpo apresenta contos que podem ser considerados chocantes e intrigantes, na medida em que colocam em foco a sexualidade humana, principalmente o desejo feminino. Sendo a sexualidade o assunto em questão na obra, consequentemente, são problematizados os aspectos concernentes a repressão da mesma.
  
Referências:
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

A repressão e o desejo



Por Patrícia Mendes

No conto “Miss Algrave”, a protagonista Ruth Algrave é cheia de pudores. Ela é irlandesa e vive sozinha num apartamento em Londres, faz pose sendo moralista. Tudo para ela era considerado pecado, portanto, proibido, como por exemplo, comer carne ou tomar banho nua.

Ela se orgulhava de sua situação, solteira, virgem, pura e casta e se achava no direito de julgar os outros, principalmente as mulheres que viviam em situações diferentes dela, ela classificava tudo como imoral ou falta de vergonha, ela repudiava até a sexualidade dos pais.

A felicidade para ela era dedicar-se ao trabalho, visitar sua amiga idosa, tomar chá e alimentar os pombos, mas sua vida dá uma reviravolta ao receber a visita de um ser de outro planeta, o Ixtlan, e ao sentir o gozo pela primeira vez. Os seus conceitos mudam e ela passa a fazer tudo aquilo que ela condenava: de moça cheia de pudor ela se transforma em mulher viciada em sexo, primeiro ela sai à procura de homens apenas para satisfazer o seu desejo, mas depois ela descobre que pode fazer disso uma profissão e ganhar dinheiro, então sua vida começa a girar em torno dos prazeres.

Nesse conto podemos perceber a presença da repressão sexual e a associação do sexo, do prazer com o pecado. A protagonista é uma mulher que vive reprimindo e negando sua sexualidade, que se sente culpada pela lembrança que a atormenta: “[...] quando era pequena, com uns sete anos de idade, brincava de marido e mulher com seu primo Jack [...]” (Lispector, 1998, p. 13). Ela manifesta um sentimento de repulsa em relação à sexualidade, portanto, se ela falasse sobre sexo, estaria transgredindo.

Segundo Foucault (1988) e o que ele chama de hipótese repressiva, ao retirar a sexualidade que transitava de uma maneira livre até o século XVII e colocá-la na esfera privada, a sexualidade foi reduzida à sua função reprodutora e restrita ao casamento, o que acarretou a submissão sexual (principalmente das mulheres) e tudo o que ocorresse fora desse contexto era condenado.

Referências:
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber, tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A.Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

"O erro da vendedora", de Chico Pedrosa

Indicação de Erli Porto
Poema de Chico Pedrosa, poeta nordestino.

Sexo ou liberdade?



Por Elisângela Barbosa Borges

Com base na leitura do texto “Nós, os vitorianos”, de Michel Foucault (1988), proponho estabelecer a análise de um dos contos de A via crucis do corpo, de Clarice Lispector, intitulado “Melhor do que arder”.

Desde a época clássica, a “colocação do sexo como discurso” teve de enfrentar certo bloqueio e/ou proibição. Já considerando os três últimos séculos, identifica-se uma verdadeira explosão discursiva a respeito desse assunto. Não somente foi ampliado o domínio do que se podia dizer sobre o sexo, mas, sobretudo, focalizou-se o discurso no sexo, através de um dispositivo completo e de efeitos variados que não se pode esgotar na simples relação com uma lei de interdição.

Ao analisar o conto já mencionado de Clarice Lispector, é possível perceber a submissão por parte personagem Madre Clara diante da imposição de poder da família e ao mesmo tempo, da Igreja. Essa mecânica do poder também é abordada por Foucault, segundo ele “o poder que toma a seu cargo a sexualidade, assume como um dever roçar os corpos; acaricia-os com os olhos; intensifica regiões; eletriza superfícies; dramatiza momentos conturbados [...] o poder ganha impulso pelo seu próprio exercício; o controle vigilante é recompensado por uma emoção que o reforça, a intensidade da confissão relança a curiosidade do questionário, o prazer descoberto reflui em direção ao poder que o cerca [...] o poder funciona como um mecanismo de apelação, atrai, extrai essas estranhezas pelas quais se desvela. O prazer se difunde através do poder cerceador e este fixa o prazer que acaba de desvendar” (Foucault, 1988, p. 45).

Considerando as ações da personagem Clara, é possível estabelecer um paralelo com alguns pontos citados por Foucault. É evidente que a personagem não apenas se submete a uma espécie de poder, como aos poucos permite que o prazer, o desejo idealizado, ganhe impulso pelo próprio exercício desse poder. De certo modo, essa forma de poder contido no texto também assume como dever acariciar os corpos com os olhos, como em: “Não podia mais ver o corpo nu do Cristo” e intensifica a percepção de regiões do corpo: “[o padre] Imaginou que suas pernas deviam ser fortes, bem torneadas”. Nota-se que Clara se vê tomada pelas estranhezas que o poder é capaz de proporcionar, a partir do momento em que não suporta mais viver só entre mulheres, desde então, sustenta o desejo de sair do convento, achar um homem e casar-se.

“É melhor casar do que arder”, disse o padre. A visão do casamento em relação a essa afirmação representa não só um espaço permitido como também marca a passagem de repressão à liberdade, onde o sexo não está mais condenado a permanecer na obscuridade.

Referências:
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Confissão e sexualidade



Por Beatriz Oliveira Dantas

Vivemos numa sociedade onde há receio em expor a nossa própria sexualidade, mas não foi sempre assim. Segundo Michel Foucault (1988), até o século XVII não havia essa preocupação, as pessoas falavam desse assunto naturalmente sem pudor, sem nenhum receio do corpo nu. Mas as coisas se transformaram com a chegada da pudicícia imperial e o lugar da sexualidade migrou para dentro de casa, obviamente para o quarto do casal, que agora apenas tem o papel de se reproduzir; o assunto sobre sexo se “calou”. As pessoas já não falavam sobre sua sexualidade em público e definiu-se onde e quando poderia se falar dela, quando não foi proibida por completo. O sexo passou ser considerado como pecado, a não ser que fosse utilizado para a procriação.

Com todo o tabu que se criou em torno de sexo, paradoxalmente, a curiosidade das pessoas aumentou ainda mais, as quais sentiram a necessidade de saber e falar mais sobre o assunto; para a mídia tornou-se um bom negócio, uma vez que surgiram mecanismos lucrativos para atender essa demanda.

Por outro lado, para a igreja Católica, a confissão que abordasse pecados sexuais deveria ser completa tinha-se que relatar tudo sobre sexo: gestos, parceiros, carinhos, etc., pois, como já foi dito o ato sexual era considerado pecado e por isso tinha que haver o cumprimento das penitências dadas pelo padre. A partir da ideia da confissão Católica surgiram outras confissões que foram muito importantes para que se pudesse conhecer um pouco mais sobre a sexualidade das pessoas. Surgiu a “confissão” ao psicólogo, na qual inclusive pagamos para que eles possam nos ouvir; e uma que é importantíssima, em relação à própria saúde, foi a “confissão” ao médico que passou a ser essencial para uma orientação tanto sobre o sexo, quanto a orientação para a prevenção de doenças que foram surgindo.

No livro A via crucis do corpo, de Clarice Lispector, no conto “Melhor do que arder”, fica evidente o processo de transformação em tabu que o sexo sofreu e sofre até os dias atuais. Conta-se a história de madre Clara, que no desenrolar da história sente desejos, sente necessidade de um companheiro, sentimentos que são confessados à amiga que a aconselha: “Mortifique o corpo” (Lispector, 1998, p. 71). Claro que a amiga iria lhe aconselhar assim, pois considerava um pecado sentir esses desejos e muito mais por ela ser uma madre, e então Clara fala ao padre: “Não agüento mais, juro que não agüento mais!” (Lispector, 1998, p. 72) e que também lhe aconselha: “É melhor não casar. Mas é melhor casar do que arder” (Lispector, 1998, p. 72). E como era de se esperar, ela acaba seguindo os conselhos do padre: abandona o convento, encontra o tão sonhado marido e se casa.

Referências:
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco,1998.